O romance

A paciência nos dá livros, diz um antigo provérbio. Eu ainda não sei realmente o que é um livro. É sobretudo uma coisa com páginas, e palavras, coisa que é como é e que depois já são duas, três quatro coisas. Julga-se um livro pelo tamanho?, pela complexidade?, gênero?, relevância? Quando cada um procura descrever o livro, explica-se, exemplifica-se, defende-se, propaga-se — cada um acredita estar a explicar o que é um livro «de verdade». Só que nunca lá se encontra nenhuma verdade absoluta. Um livro que começamos a ler e não o terminamos, pode/deve ser considerado um livro? Certo dia sento-me à escrivaninha e escrevo um capítulo, noutra semana escrevo mais dois capítulos, depois oito, quinze capítulos. O livro se encorpa, digo a mim mesmo. Até que, numa determinada ocasião, dou-me conta de que: sim, concluí o romance, um romance devastador, algo de muito genioso saíra da minha cabeça. Que prodígio. Bem verdade que o honesto manuscrito necessita de alguns retoques, mas, no geral, está pronto para ser embrulhado e despachado alhures. Ontem à noite, por exemplo, comprei canetas novas. Chegar-me-ão pelos correios.

— P. R. Cunha

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