O telefone

Começa assim: você está em casa a resolver tarefas domésticas quando escuta o telefone tocar. Você raramente recebe telefonemas, e não estava de forma alguma a pensar em telefonemas, muito menos na morte, você apenas distraía-se com os afazeres domésticos. No entanto, eis que toca o telefone e alguém do outro lado da linha diz que sente muito, sente muitíssimo, que não queria lhe dar aquela notícia terrível, que nunca é fácil dar notícias desta natureza, mas, infelizmente, é preciso fazê-lo… Você então desaba a chorar e passa a desenvolver um trauma patológico. Você agora tem aversão incontornável ao telefone, e por vezes você escuta o barulho penetrante do toque do telefone às nove da noite, ou mesmo às duas horas da madrugada, e você não atende. O telefone toca durante dias inteiros, você escuta-o tocar, mas não se atreve a atendê-lo. Você sente medo.

— P. R. Cunha

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