O café

Há um café ao qual o sr. Vargas vai todas as manhãs para tomar o pequeno-almoço. E isto assim se passa há mais de trinta anos. O sr. Vargas acorda, banha-se, veste-se, vai ao café, toma lá o pequeno-almoço. O café fica perto do apartamento do sr. Vargas, de modo que ele vai caminhando. Essas caminhadas muito agradam ao médico do sr. Vargas, que estava a ficar preocupado com o sedentarismo do velho paciente. Havia uma altura, reflete o sr. Vargas, havia uma altura em que as pessoas íam aos cafés para olhar outras pessoas a tomar o pequeno-almoço, ou a comer a torta de morango, ou apenas para fingir que liam o jornal enquanto observavam as outras pessoas convivendo às mesas — e assim por diante. Acontece que agora os cafés têm Wi-Fi. E por terem Wi-Fi acabam por receber um dos tipos mais capciosos de clientela: o escritor de café. O perfumado escritor de café com o próprio computador, os auscultadores Bluetooth, a cabeça orgulhosamente erguida, como uma girafa ao público, impossível de não se notar. Por todos os cafés há assim um disparate dessa laia, pensa o sr. Vargas. E isso bole-o com os nervos.

— P. R. Cunha

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s