A marca

Um vento vespertino soprara as cortinas da sala de Charles, que, sem tirar os olhos da TV, levantou-se para fechar as janelas. Sentou-se novamente no sofá e tateou a mesinha de centro à procura da chávena de café. Enquanto levava a chávena aos lábios, Charles percebeu uma pequena mancha escura no metacarpo da mão direita, perto do polegar. Estranho, ele disse, nunca tinha notado isto. Ele foi ao banheiro a ver se a mancha saía com água e sabão. Não logrou êxito, a mancha continuava ali. Foi até ao quarto, desconectou o telemóvel da tomada e digitou números. Senhora com voz de quem fumara a vida inteira atendeu. Mãe, disse Charles, estou com uma mancha escura no meu metacarpo. Depois de um breve silêncio, a voz rouca disse: mão direita? Charles respondeu que sim. Ora, continuou a mãe, é a tua mancha de nascença, nunca tinhas percebido? Trocaram ainda algumas miudezas da praxe e despediram-se sem muita cerimônia. Charles levantou as mãos contra a luz do quarto: estranho, muito estranho, ele disse. Depois jogou-se na cama, a pensar em todas as coisas que nunca percebera em si mesmo, no próprio corpo, na própria pele.

— P. R. Cunha

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