O poema

Não se sabe ao certo o motivo, mas desconfia-se que Poeta tenha procurado abrigo ao oceano depois de algumas decepções verdadeiramente desestimulantes com as quais tivera de lidar nos últimos tempos. Dir-se-ia que a vista desimpedida, as ondas espumosas, os eventuais navios que cortam de forma breve e sutil a linha do horizonte mostraram-se antídotos mais que eficientes ao outrora agitado temperamento de Poeta. Agora, segundo a população local, o criador de versos é figura notável pelos seus hábitos tranquilos, rumina permanentemente nas praias junto ao mar, como um farol orgânico com a cabeça iluminada. Durante o ocaso, Poeta na areia vibra as cordas do próprio violino, e os vizinhos que porventura deixarem as janelas abertas escutarão a lacrimosa melodia — serão levados a interrogar-se se Poeta estaria a escrever algum outro poema introspectivo àquela altura.

— P. R. Cunha

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