O arquétipo

Escritor com cabelos desgrenhados, a barba rala que mal consegue cobrir as bochechas avermelhadas pelo frio e cujos olhos estranhamente desorientados parecem incapazes de manter qualquer foco. Pode um homem embebedar-se com tanto afinco de espírito (sublinhado nosso) ao cálice da desconfiada Língua Portuguesa ao ponto de perder, como se diz, os próprios botões? Escreveu em português, amou, odiou, lembrou em português, pesquisou, leu, fora afogado pela publicidade, vendeu, comprou em português, sonhou, chorou, comeu em português até sentir a falta de ar, como se prestes a oferecer o derradeiro suspiro antes que as ondas de letras pudessem levá-lo algures. De modo que, a título de sanidade, o escritor se afasta do idioma materno. Decide-se pelo silêncio, ou pelas entranhas russas. Temporário? Não chega a ser necessariamente um período de desintoxicação, é mais um estágio de descompressão. Reajustes, se preferirdes.

— P. R. Cunha

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s