A colmeia

O pai e a mãe estão conversando na cozinha. Enquanto o pai prepara o café, a mãe lê o jornal e diz: é mesmo um sistema econômico predatório, inútil, onde já se viu?, telemóvel com ecrã dobrável, quem precisa de um troço desse? O pai fica a observar o fluxo constante do café a cair do coador: dizem que o Franklin lá da firma tem um desses — ele fecha a garrafa térmica —, qualquer dia o planeta não suporta mais esse tipo de capricho. Lá em cima o menino está dormindo. Abre os olhos. Faz uma espécie de cabana com o próprio cobertor. Espera até que alguém vá chamá-lo para se arrumar e ir à escola. O menino regozija-se com aqueles minutinhos extras de sono, os melhores minutinhos de preguiça de sempre, ele pensa. Mas ninguém aparece. O menino se dá conta de que é sábado e a soneca transgressora perde todo o sentido. Ficar deitado sem ter que fugir de compromissos não possui o mesmo sabor. O menino se levanta e vai até ao quintal. O pai e a mãe ainda estão a conversar na cozinha. A mãe está a comer as torradas com manteiga enquanto observa pela janela embaçada o filho a brincar no quintal. O menino fica parado embaixo da árvore. Ele tenta jogar pedras na colmeia. As três primeiras pedras não atingem a colmeia, a quarta, sim. Daí as abelhas assustadas voam em todas direções, inclusive na direção do menino, que começa a ficar com a pele empolada — é alérgico. Mas não há nenhuma moral realmente relevante nesta história.

— P. R. Cunha

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