devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

o menino acorda com os gritos da briga dos pais. é o quinto, ou melhor, o sexto domingo seguido que isso acontece. o menino acha que os pais brigam aos domingos porque é justamente o dia em que o pai, motorista de trator, fica em casa. os gritos trafegam em todas as frequências audíveis: graves, agudos, médios etc. o pai claramente é o contralto da orquestra. a voz da mãe modula-se de acordo com o andamento da partitura: por vezes tenor, daí soprano, noutras vezes barítono. a sinfonia é insuportável, pensa o menino. nos dias da semana, os pais não brigam porque cada um fica, como se diz, «na sua». o pai a dirigir trator, a mãe a vender miudezas na quitanda da dona célia, uma senhora redondinha que nunca tira o lenço da cabeça. o menino está claramente a desenvolver uma aversão aos domingos. ele sai de casa para arejar os próprios pensamentos. o sol da manhã já se mostra cruel. o menino vai até à beira do rio. a água do rio que passa & jamais volta, ele lera qualquer coisa do gênero na biblioteca da escola, em algum livro sobre o conceito de tempo, passagem do tempo, entropia, algo assim. o menino agacha-se & ao colocar a água na boca ele pensa que ninguém jamais tocará naquela água novamente. ele agora reflete se deve cuspir a água de volta para o rio, a ver se o acaso levaria aquela mesma porção de líquido às mãos de uma outra pessoa. antes de decidir (se cospe ou não cospe), o menino escuta um barulho distante de tiro de pistola. os pássaros assustados abandonam apressadamente os galhos das árvores. & o silêncio. aquele silêncio de morte, tão comum aos domingos, sussurra o menino.

— p. r. cunha

5 thoughts on “devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

  1. Bom… Uau… Este texto me deixou assim um pouco doente… 😦
    Porque consigo imaginar um milhão de cenários, que gravitam dos corriqueiros, aos absurdos, passando pelos trágicos… E a tragédia sempre me atraiu mais… Ou talvez porque existe uma criança, e eu tenha ficado mais sensível, depois de pai…

    1. Sei bem o que estás a dizer, Jauch. Determinadas tragédias captadas pelas antenas humanas e (re)transmitidas de acordo com o temperamento de cada narrador/observador. A recepção de tais relatos é um processo do qual pouco temos controle, no fim das contas.

      1. Sim. Por exemplo, eu tenho um conto já no meu blog, A Carta, que foi escrito com uma certa tragédia em mente, mas já teve leituras muito diferentes. No meu caso, o final do conto não dá pistas suficientes. No caso aqui, não é uma questão de pistas, que não há nenhuma, apenas uma sugestão que fica no ar, por conta da narrativa e do clima. Muito bom 🙂

        1. Li A carta, (maio 4, 2017, Jauch, miniconto, morte, tristeza). Melhor quando se tem forças para picotar o papel do que rasgar-se a si mesmo.

          Andar às voltas, à procura de sentidos, motivos, motivações — de um cais.

          Etc.

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