devaneios da própria máquina de escrever (episódio #31)

TEMA DA ÚLTIMA AULA DE ESCRITA CRIATIVA DE 2019

[SUGESTÃO DOS ALUNOS]

quando tu escreves ficção, tu estás a contar mentirinhas. sim, é um jogo. um jogo em que tu farás de tudo para esconder as costuras da tua trama & não aborrecer os leitores — que não querem lembrar que estão imersos em ilusões. portanto, tens de ser convincente. & também por se tratar de um jogo, o escritor de ficção tem a liberdade de soar/agir de maneira, digamos, excêntrica. tu crias mundos paralelos, percebes?, personagens, sentimentos, caos, ordem, és tipo um deus pagão sem ambições evangelistas. o próprio escritor se (re)cria. sempre antes de começar qualquer narrativa gosto de imaginar uma versão otimizada de mim mesmo. uma espécie de escritor sob efeito de esteróides literários, se preferires. o meu duplo é muito melhor do que eu, escreve muito melhor do que eu, é sociável, toca guitarra numa banda islandesa de post-rock, ele sempre tem muitas ideias, sabe colocá-las em prática, o meu duplo já publicou várias obras, sabe lidar com a pressão editorial, participa da feira do livro, conversa com os leitores sem magoá-los. enfim, acho que pegaste a essência, certo? acontece que, para a coisa toda funcionar, o doppelgänger precisa mesmo de ser inatingível. ele é um eu-hipotético-ideal-übermenschizado, uma direção. um foco. a escrita acontece enquanto tento me aproximar desse espelho encantador cuja desenvoltura me inquieta & me perturba & me fascina ao mesmo tempo.

— p. r. cunha

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