Sobre a indústria dos «likes» e não só

Foi-se o tempo em que o escritor podia ficar em casa a escrever sossegado, a receber os cheques da editora, depois lançava o livro, comparecia a um par de eventos promocionais, dava algumas entrevistas, voltava ao próprio escritório para que o ciclo recomeçasse.

Vive-se hoje na era da participação, do compartilhamento, do gostei-não-gostei. Era dos likes — os onipresentes botões (coração vermelho, sinal de joinha, estrela etc. etc.) que por vezes se transformam em símbolos superestimados. Comparo-os com a tecnologia nuclear, que pode gerir imensa quantidade de energia (estímulos positivos), mas também constrói bombas devastadoras.

Há pouco tempo um blogueiro enviara-me a seguinte mensagem: percebo que você não dá likes nas minhas publicações, então vou deixar de dar likes nos seus textos. Assim, curto e grosso. 

O que está acontecendo aqui?

Compreendo que muitos leitores utilizam essa ferramenta (na falta de melhor termo) para mostrar ao autor que leram, que apreciaram de verdade o que estava escrito. A valsa, no entanto, costuma ser um bocadinho mais fúnebre.

Comecei a notar que alguns utilizadores da Romênia e da Turquia apertavam constantemente o botão de curtir das minhas publicações. A parte vaidosa do meu cérebro dizia: que barato!, romenos e turcos a ler os meus devaneios. Enquanto a parte racional aterrava-me sem piedade: por que cargas romenos e turcos leriam as coisas que tu escreves, cidadão? 

Daí acessava o sítio web deles, e não entendia nada, e obviamente não dava like nenhum. Com o tempo, os likes das minhas publicações também sumiam. Alas!, romenos, e turcos, e gregos, e paquistaneses de súbito perderam o interesse pela minha literatura trópico-experimental.

Repito: o que está acontecendo aqui?

Estamos atrás de leitores ou de recompensas? (Fico a pensar se a resposta explicaria fenômenos recentes como o jogo de caçar Pokemón.) Fulano pode ter ao rodapé do próprio blogue uma infinidade de likes, gentes de toda a parte do planeta, gentes que só estão a dar likes para receber likes de volta. Não pretendem ler, muitas vezes não fazem a ideia do que se trata, querem apenas a troca, a premiação, os diplomas na parede eletrônica. «Vê, mamã, quantas pessoas gostaram da minha receita de musse de maracujá que publiquei em sânscrito.»

Egotismo à parte e em termos evolutivos, minhas rotinas literárias talvez se aproximem mais dos modos de escritores de um passado recente — não é Montaigne, é DeLillo; nem Platão, é Wittgenstein. Ao mesmo tempo, procuro estudar sobre o que significa ser humano nos dias atuais, no século vinte e um, 11 de novembro de 2019, por isso tento manter este recanto cibernético abastecido.

É uma válvula, não um jogo de trocas. Uma busca — muito provavelmente, uma busca eterna.

O desafio seria sobreviver aos bytes-and-bites sem ser abatido pelos caçadores de recompensa. Pois, como diria David Foster Wallace, os escritores de ficção tendem a ser mirones ávidos, tendem a espreitar e a fitar, são observadores natos, espectadores, são as pessoas que vão no metropolitano e que têm qualquer coisa de certa forma sinistra no olhar desprendido. Porém, continua o sr. Wallace, os escritores de ficção tendem a ser extremamente autoconscientes. Tal como dedicam imenso tempo produtivo a analisar a impressão que as outras pessoas lhes causam, também dedicam imenso tempo produtivo a interrogar-se nervosamente sobre a impressão que causam às outras pessoas.

A consequência, conclui o sr. Wallace, é que por norma a maioria dos escritores de ficção não gosta de ser objeto da atenção das outras pessoas. Muito menos de se sentir o objeto das outras pessoas. Contudo, pelos vistos, é justamente isso que os meios de comunicação modernos estão a fazer connosco: meros replicantes descartáveis a apertar likes com a falsa promessa de que isso significa participar.

— P. R. Cunha

8 thoughts on “Sobre a indústria dos «likes» e não só

  1. De fato vivemos em um tempo sombrio em que a quantidade de “likes” importa muito mais que as interações em si (como em um comentário, por exemplo). E esses seus exemplos são ótimos retratos de como esse sistema não funciona e, talvez, seja bastante danoso a todos nós.

    Pior ainda querer exigir esse tipo de interação de um escritor… é a banalização/loucura dos tempos modernos, haha

  2. Oi Cunha, eu acho que o like é o antigo “presente” da sala de aula, mostra que a pessoa veio ao blog da gente, e mesmo sem comentar, ou sem saber o que comentar, esteve ali. Eu escrevi alguma coisa assim num post meu, eu penso dessa forma. Nem em todos os blogs eu sei comentar sobre o assunto, então visito alguns e deixo minha curtida.
    Quanto ao meu blog, às vezes vejo algumas pessoas que seguem, de outros países, que não entendo a língua, ou de blogs vazios. Fica difícil de manter uma comunicação.
    E há outros que tiram o “curtir” deixando apenas o espaço para o comentário, mas se não tenho o que dizer, não há como me comunicar.
    Abraço.

  3. Se a humanidade que vive nesta esfera que nos conduz pelo universo está longe de ser perfeita, a “blogo-esfera” reflete muito bem essas imperfeições.

    Neste virtual mundo encontramos sensibilidade, verdade, bom senso, egoísmo, arrogância, e muito, muito oportunismo. Depois de uns anos nisto, todos sabemos identificar estas situações. Basta estar atento à dinâmica das publicações, dos likes, dos comentários e da atitude dos próprios bloggers. Ou à efemeridade de muitos blogs!

    A verdade é que todos estamos aqui porque queremos. Para uns é apenas uma válvula, para outros a forma de chegar a um objectivo qualquer, para outros uma terapia, para outros uma catarse profunda, para outros uma partilha de criatividade e sensibilidade. A diversidade no seu melhor!

    Contudo, na minha humilde perspectiva, é importante que haja sempre alguma troca, seja respondendo a todos os comentários que nos fazem, seja acompanhando outros blogs e dando a nossa apreciação. Mesmo que seja só um like, pontualmente. Quando seguimos um blog é porque ele nos estimula de alguma forma. Então demonstremos isso sem preconceito, como se partilhássemos um olhar, um sorriso ou um obrigado. Ou então deixamos simplesmente de o seguir. Plantemos a verdade, se também queremos verdade.

    Viver na blogosfera é como viver nesta sociedade: estar atento, observar, dar e receber. Com honestidade. E não dar importância a detalhes que realmente não são importantes!

  4. Olá Cunha. Gostei do teu post e tem a sua verdade. No entanto eu como muitos outros damos uma certa importância aos “likes”. Quando tu fazes um “like” isso diz-me que tiraste tempo para ler os nossos posts. Eu e tantos outros fazemos “likes” porque gostamos do conteúdo dos teus posts. Fazer um “like” para mim é dar valor ao que tu decidiste partilhar com o mundo. Haverá sempre os dois lados a moeda. Os que fazem “likes” por fazer. Outros como eu porque realmente gostamos do que foi publicado. Como @dulcedelgado escreveu: ” … não dar importância a detalhes que realmente não são importantes!” Beijo

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