dizer a mesma coisa, de outra maneira (ou repetir-se para reforçar-se)

 *publicado originalmente no periódico o festival.

disseram-me que costumo pisar em ovos quando falo de assuntos polêmicos. então vamos lá falar de assunto polêmico sem pisar em ovos, chega de desperdiçá-los. machado de assis, lima barreto, clarice lispector, carlos drummond, cecília meireles, stanislaw ponte preta (poder-se-ia chamá-lo também de sérgio porto, ele não se importava), enfim, aqueles que pensaram a construção deste território tropical logo perceberam esta característica intrínseca, imutável: o brasil é um país absurdamente contraditório. defende a floresta, mas corta a floresta; quer mundo ecológico, sem dióxido de carbono, mas constrói capital voltada ao consumo de automóveis; reclama que o estrangeiro só enxerga samba-e-futebol na alma brasileira, mas o próprio brasileiro se coça para dançar o sambinha enquanto o flamengo chuta a bola na televisão; muitos homossexuais daqui passam a vida toda a criticar os abusos dos dogmas religiosos, as arbitrariedades das instituições arcaicas, mas quando decidem se casar, querem fazê-lo na mesma igreja que nunca os aceitaram; república federativa do brasil, dos estados desunidos, onde nordestinos sofrem xenofobia no sudeste, & o sul quer ser argentina (ou uruguai/ou os dois). a lista se perde ao infinito. uma salada de incoerências que azeda até hoje, quando o atual ocupante da cadeira de presidente, que se proclama defensor das «grandezas nacionais», faz birra, diz que não vai assinar a conquista literária do chico buarque. agora, pelo menos, houve resposta à altura: chico buarque a garantir que bolsonaro não rabiscar o diploma é-lhe um segundo prêmio camões. talvez o brasil precisasse de mais réplicas como essas…

— p. r. cunha


prcunhaperiodico

12 thoughts on “dizer a mesma coisa, de outra maneira (ou repetir-se para reforçar-se)

  1. Será que interessa a alguém a assinatura desse ocupante da cadeira? O prémio será sempre e merecidamente entregue em Portugal pelo nosso ministério da Cultura!

  2. Creo que en todos los países pasa algo parecido. Y es que nunca estamos contentos con nada…
    He visto que estás escribiendo una historia por capítulos, ya la iré leyendo.
    Un abrazo.

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