Brasília, 24 de setembro

Era terça-feira. O sol da tarde invadia o para-brisa do automóvel dele. Um calor surreal-desértico-insuportável esquentava as janelas do veículo como se quisesse anunciar a chegada do próprio diabo. Ele aumentou a potência do ventilador interno e uma baforada infernal atingira-lhe o rosto. O ventilador não fazia diferença. Em verdade, só piorara a situação. Uma motocicleta barulhenta surgiu do nada e ele teve de travar fundo o pedal de freio — fundo mesmo, parecia que a sola do sapato iria se desintegrar a qualquer momento. Não atingiu a motocicleta por questão de centímetros, talvez milímetros. Ele ainda xingava a progenitora do motociclista quando ouviu o telemóvel vibrando. Tateara o banco do passageiro para procurar o iPhone que mostrava-se tão quente quanto magma vulcânico. Levou o aparelho ao ouvido e antes de dizer «alô» sentiu como se a orelha fosse derreter. Por puro reflexo, jogou violentamente o telemóvel sobre o painel. Alguém do outro lado da linha gritara alguma coisa, mas ele não escutou nada. Estava ocupado demais coçando a orelha direita, que ardia imenso.

— P. R. Cunha

6 opiniões sobre “Brasília, 24 de setembro

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s