Armadilhas literárias

Está o escritor presente em tudo o que escreve? As histórias, ou melhor, estórias que ele publica são autobiográficas? É legítimo fazer-lhe aquelas perguntas que tanto inquietam Orhan Pamuk — a saber: isto que o senhor escreveu realmente ocorrera?, o senhor passara por todas essas coisas? Diversos estudos psicológicos procuram compreender os pormenores do discurso daqueles que contam mentiras; se é ou não possível acreditar numa mentira caso essa mentira seja repetida inúmeras vezes etc. Noutros termos mais literários: pode o escritor confundir-se com a própria ficção? Neurocientistas apontam que a memória é traiçoeira. Mesmo se o emissor, com as melhores das intenções, garantir que está a falar a verdade, essa verdade pode se mostrar bem distinta dos acontecimentos ocorridos. Recordamos de forma equivocada e parece claro que essa sinuosa via neurológica levar-nos-ia a paradoxos absurdos nos quais a Verdade (com V maiúsculo) é apenas uma concepção artística. Ao passo que deveria de existir uma espécie de acordo tácito entre aquele que descreve e aquele que lê. Se o autor se identifica como escritor de ficção, voilà, os leitores deveriam apreciá-lo como tal. Mesmo que a verdade lhe sirva de alimento criativo, o que ele está a contar são representações (ilustrações, se preferir). Os envolvidos que não levarem esse acordo em alta conta correm o risco de caírem naquele obscuro vale descrito por Henry James — onde o observador se vê também como um estranho e perdido personagem.

— P. R. Cunha

2 thoughts on “Armadilhas literárias

  1. Nossa, são muitas as questões… a memória também nos prega peça, o jogo entre ilusão e realidade nutre a ficção; o escritor se mostra ou se esconde? ou os dois? Há um jogo dialético. Não sei explicar muito, mas creio que a ética deve também nos nutrir. Senão…”verdade como construção artística” é farsa. Há o real e os sonhos. Um nutre o outro. Mas, também tem a ideologia… Nossa, são muitas as questões…

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    1. A Léo Campos trouxe-me ótimas meditações complementares. Creio que o pior tipo de escrita é aquela amarrada a certos discursos ideológicos. Poucos são aqueles que conseguem diluir a política no soro literário (penso aqui, à guisa de distração, em Jonathan Swift e George Orwell). A grande maioria, no entanto, se perde numa vazia estrutura panfletária — em farsas…

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