Peregrinação chilena ao templo vulcânico

Para chegar à cidade de Puerto Varas — da qual eu nada sabia a não ser que era o sítio em que se podia avistar o vulcão Osorno — o viajante precisa de percorrer uma bucólica estradinha a cortar quintas e choupanas dignas do álbum Atom heart mother, dos Pink Floyd. São imensas pradarias verdes com vacas, lhamas, cavalos, ovelhas e outras espécies a se alimentar despreocupadamente, uma disposição quase teatral comprovando diante dos olhos de todos que é ainda correto o axioma a enaltecer a vida no campo como qualquer coisa menos vertiginosa. A despeito de toda a calmaria meditativa, inclinei-me com ansiedade no assento do automóvel a ver se encontrava o verdadeiro protagonista da Região de Los Lagos: o próprio Osorno. Mas não é assim tão fácil desvendá-lo. Quando o motorista da carrinha apontou para o local onde a montanha supostamente estava, o que pude enxergar foi uma linha branca, anuviada, algo mais parecido com os cenários apocalípticos nos filmes de Fritz Lang.

O Osorno encontra-se ao nordeste do Llanquihue — que em mapudungun, língua dos mapuches (ameríndios que habitam as bermas do vulcão há milhares de anos), significa «lugar para se mergulhar na água». O lago possui 860 km² e os nativos costumam explicar, não sem um certo orgulho nos termos, que toda a capital Santiago caberia ali dentro e ainda sobraria espaço.

Foi apenas no passeio no dia seguinte à chegada a Puerto Varas, dentro de uma furgoneta Ford que leva passageiros curiosos para perto do Osorno, que pouco a pouco a fisionomia glaciar do vulcão começou a adquirir nitidez. Durante a viagem penetramos territórios que em tempos foram habitados pelo povo mapuche, mas que hoje encontram-se tão desfigurados que é difícil imaginar como teria sido de facto a diversidade daquela paisagem.

Pelo conhecimento que se tem das tradições mapuches, cabe duvidar de qualquer tentativa de minimizar a avassaladora intervenção estrangeira desde a chegada dos chamados conquistadores espanhóis a partir do século XVI. Os mapuches foram expulsos, humilhados, escravizados e hoje sobrevivem como podem em zonas urbanas completamente diferentes daquelas vastas e férteis florestas onde os próprios antecessores criaram raízes.

O colonialismo interessado na lã dos animais da localidade logo precisou de ser expandido para atender às demandas em larga escala da Revolução Industrial. Os abundantes recursos naturais encontrados em territórios dos mapuches fizeram com que os exércitos chileno e argentino se mobilizassem para expulsar os nativos das florestas e abrissem espaço para as iniciativas multinacionais. No caso de Puerto Varas a mão de obra foi suplantada pelo metódico trabalho de emigrantes alemães — motivo pelo qual a cultura germânica mostra-se tão presente em Los Lagos.

É de se imaginar que os bosques que hoje recuam até à remota Reserva Nacional Llanquihue eram também a morada de incontáveis chucao tapaculo (la voz del bosque del sur), carpintero negro, loro choroy e outros pássaros com cantos melodiosos e persistentes. Hoje, no entanto, o que se vê é a cicatriz de uma floresta que, tal como os mapuches, parece demonstrar sinais de desistência. Os animais que porventura são encontrados a tentar cruzar as estradas escondem-se onde podem, com os olhos esbugalhados e sempre na expectativa da morte. Parecem esperar pelo som metálico do machado alemão, que numa altura passeou-se por lá e levou consigo boa parte da biodiversidade.

* * *

Os paleontólogos conseguem reconstruir a estrutura de um dinossauro a partir de pequenos, quase insignificantes, fragmentos fósseis. Assim também me parece que são aqueles que escrevem sobre a própria viagem. Recortes de visões, de memórias. No mais íntimo do coração, o sujeito que se predispõe a relatar o que ocorrera algures tem a curiosa certeza de entrar numa máquina do tempo. Sentado à escrivaninha, leva a caneta até à boca, escolhe entre as paisagens nas quais esteve. Compõe a maqueta do passeio, a maqueta de si mesmo. 

Inseguro e com aquela relutância que as pessoas costumam sentir quando se aproximam muito de um vulcão ativo, o condutor da furgoneta avançava vagarosamente. A estrada era uma jiboia sinuosa a fazer curvas abruptas e traiçoeiras enquanto o Osorno mostrava a conhecida silhueta à monte Fuji da ilha Honshu.

Com cada vez mais força as dimensões do Osorno inquietavam-me. O artista húngaro László Moholy-Nagy certa vez escrevera que podemos estar em toda a parte, rodeados por pessoas, e ainda assim estarmos sós. Era como eu estava a me sentir. Havia qualquer coisa nas fornalhas do Osorno que me colocava no meu devido lugar, como se diz. Um silêncio devastador, um presságio de que algo estava para acontecer.

Olhei para o céu e pude observar uns quantos condores-dos-andes desenhando figuras circulares por cima do cume do Osorno. Comentei com o condutor da furgoneta a respeito dessas aves que se alimentam de carne em putrefação mas o velho homem garantira-me que naquela parte da subida era muitíssimo raro avistar condores, ao que julguei estar delirando ou coisa ainda pior.

Recordei-me também que quando nos encontramos longe de casa só podemos ver aquilo que estamos aptos para ver — aquilo que espelha a nossa mente num momento específico. Nesse ardiloso processo, pistas falsas misturam-se com as verdadeiras.

De modo súbito notei que os condores de porte avantajado circulavam não o cume do Osorno, mas a nossa própria furgoneta. Um simbolismo de morte que pode ter passado despercebido para o condutor e também para os outros passageiros, porém criara em mim um desconforto indelével. Os condores-dos-andes seguravam a segadeira, como se dissessem que também eu, brevemente, me dissolverei em cinzas, transformar-me-ei numa massa informe, irreconhecível. Esses bichos necrófagos, pensei comigo, estavam à espera do meu cadáver.

Aqui uma passageira arruma o cabelo; ali, um passageiro espia a relva, leva as mãos ao rosto para proteger os olhos ofuscados pelo sol; num momento alguém limpa os braços no tecido da calça, no outro assobia uma canção andina.

Estava completamente perdido naquela fantasia de que quando visitamos um vulcão ativo estamos numa espécie de busca, numa jornada que transcende a nossa ínfima e temporária passagem por este planeta. Queria que aquela minha viagem se enchesse de significados, que eu pudesse escrever um relato tão interessante a respeito do Osorno que as autoridades de Puerto Varas dar-me-iam um título de cidadão honorário. 

Não sabia muito bem o que pensar dessas pretensões egotistas enquanto mirava a manta de neve do imponente vulcão. De bloco-notas, caneta Bic (quatro cores) entre os dedos ainda observava condores-fantasmas no céu e não estava a tremer-me.

* * * 

Há cerca de trinta quilômetros do vulcão Osorno encontra-se um primo temperamental que nos últimos tempos ameaça catástrofes. No dia 22 de abril de 2015, às 17h50, o vulcão Calbuco começou a soltar para a atmosfera uma parede vertical de cinzas que causaria graves danos à agricultura, suspensão do tráfego aéreo e acionamento de alerta vermelho. 

As últimas erupções do Calbuco foram um lembrete geológico. São nove vulcões em Los Lagos, todos ativos. À distância, parecem simples rochas a cortar o horizonte do Llanquihue, mas por dentro é outra coisa. Montanhas entaladas prontas para cuspir pedras de fogo para qualquer sítio.

Pergunto ao condutor como deve ser dormir com essa mortífera possibilidade. O velho me explica que o Calbuco é como um cachorro que ladra e ninguém teme os cachorros que ladram. De todos os vulcões que fazem parte do complexo regional, o Osorno — o mais discreto e calado — é o que realmente mete medo. Ele tira do porta-luvas umas pedrinhas minúsculas e explica que são vestígios do Calbuco. Depois, pega uma rocha de considerável tamanho e diz: esta, grandona — aqui o condutor aponta para o cume nevado da montanha, a quase três mil metros de altura —, esta saiu da barriga do Osorno.

* * *

Enquanto subíamos o último trecho pavimentado do vulcão fiquei a pensar que estava a desenvolver uma estranha obsessão pelo Osorno; transcendental, místico, algo que os devotos de certeza sentem quando se aproximam da figura que adoram. A furgoneta Ford estacionou perto de um estabelecimento com motivos da Patagônia e o condutor esclarecera que a partir dali o caminho teria de ser feito a pé. 

O clima que há poucos minutos se mostrava ameno, agora encobria com uma fumaça fantasmagórica praticamente todo o cimo da montanha. Rajadas de vento acertavam as encurvadas fisionomias humanas, o frio invadia a medula óssea sem trégua. Era como se o Osorno não quisesse receber visitas.

Mas lá estava eu, inconveniente, a caminhar sobre o meu novo deus de pedra, um vulcão ativo que já tirava um longo cochilo geológico. Se alguém me visse daquele jeito, praticamente ajoelhado, com aquela postura subordinada, bem capaz de acreditar que aquele sujeito encapuzado rezasse. E talvez eu estivesse mesmo a rezar. Não uma prece eclesiástica, mas um canto pagão que refletisse o atual estado da minha existência.

A ingênua (e até um bocadinho tola) sensação de que eu era o primeiro a sentir aquilo ao cimo do Osorno, sim, só eu tinha o direito de adorá-lo, de conversar com ele. Fiquei a observar dois andarilhos invasores que também subiam o vulcão, duas figuras com trajes negro caminhando lentamente para nenhures. Numa altura os dois também pararam, e vi naquele repentino gesto a negação de toda a vontade de se locomover, símbolo da imobilidade humana diante do absurdo das subidas.

Processed with RNI Films. Preset 'Agfa Optima 200 Faded'

A neblina tornava-se cada vez mais densa e cogitei que aquela tristeza de gelo, a invisibilidade branca da montanha, explicava muito do meu caráter — quanto mais não seja o facto de sempre (mesmo nos momentos mais soalheiros e felizes) ter perto de mim o anjo taciturno de Albrecht Dürer. 

Sabe-se que quando o espírito do viajante une-se perfeitamente à paisagem todo o momento se transforma numa revelação em que um simples detalhe mostra-se capaz de explicar a errática trajetória do sujeito a refletir. Balzac diria que o conjunto de uma vida pode estar resumido nisto, em uma aparência absurdamente momentânea.

Fechei o casaco de neve, virei-me para o precipício e lembrei do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos, do filho que não tenho — e que muito provavelmente nunca conseguirei ter. No escritor medíocre que me tornei. Nesta figura cabisbaixa, indolente, preguiçosa, que guarda, acumula, sempre à beira de um colapso, de uma explosão catastrófica.

Não à toa encontrei no Osorno uma metáfora perfeita para a minha mutante personalidade. Estou ficando velho, cansado, intransigente, com pouca paciência, abalado pela vida, ditatorial nos modos, posso entrar em erupção a qualquer altura e devastar tudo e todos que se arrisquem a ficar perto de mim.

Analisei com afinco o desfiladeiro inclinado do vulcão, as marcas deixadas pela lava, as transformações geográficas causadas pela atividade do Osorno. Talvez os mapuches que se aventuram até ali também fiquem a admirar aqueles violentos rastros, talvez os vulcões dos Andes sejam os últimos vingadores de um povo que há séculos precisa de aturar a barbárie contínua da colonização artificial, a ganância de um consumo que não tem fim. Bastaria uma série de erupções para que tudo voltasse a ser como sempre foi.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

7 opiniões sobre “Peregrinação chilena ao templo vulcânico”

  1. Apetecia-me dizer que apreciei as geografias descritas…mas que não apreciei as “geografias” descritas no penúltimo parágrafo por um jovem de trinta e pouco anos e cheio de futuro.
    Mas quem sou eu para gostar ou não gostar do sentir dos outros?
    Mas esta vontade de comentar…

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    1. Querida Dulce,

      Estava com saudades das nossas correspondências.

      Acontece que visitar as montanhas andinas, o Chile, um país vertical — de certeza que escreverei mais a respeito disto numa altura mais adequada —, basicamente observar o horizonte rochoso, ter experiências directas com os altos-e-baixos da região, faz com que o viajante entre contacto, também, com os próprios altos-e-baixos, o lado obscuro da Lua (a manter uma analogia floydiana). Atravessa-se a porta do Inferno de Dante para voltar a casa com uma outra maturidade na bagagem, expectativas realistas, um ajuste, sintonia fina etc.

      Por conta de minha natureza distraída, passei quase um dia inteiro sem tomar água, aos cumes dos Andes, bem longe da capital Santiago. Quando voltei à cidade, entornei uma garrafa de dois litros em menos de 60 segundos.

      Isto é: lidar com esse tipo de adversidade fez/faz com que eu valorize um bocado os refrescos que a vida porventura me oferece.

      Não sei se me explico…

      Muitos abraços do

      P.

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      1. Acho que vou ser longa…

        Entendo a ideia… entendo que a vida de todos nós é uma conjugação de “sabores” contrastantes entre o péssimo e o fascinante… entendo que é muitas vezes através da falta/ausência que damos o verdadeiro valor ao que está perto de nós todos os dias…e, até pela idade, acho que já entendo algumas das coisas desta vida. Mas tenho bastante dificuldade em entender a energia que emana daquele penúltimo parágrafo que mencionei.

        E tenho muita dificuldade porque esta pessoa que sou, por muito que a vida me desgoste, magoe ou revolte, pelo simples facto de estar aqui a fazer esta experiência de vida num planeta belo mesmo que com gente meio louca, é algo de realmente extraordinário. Apesar dos obstáculos, das expectativas/frustrações, dos tropeções, das quedas, das lágrimas, das dores, etc. Que todos enfrentamos, sem excepção.

        Mas vivo, respiro, sinto, amo, toco, cheiro, ouço, vejo, partilho, tento estar atenta e esforço-me por ser um pouco melhor. Por vezes dizem-me que não vivo na realidade porque este mundo não é assim. Não, o planeta é vida e eu estou viva neste ponto do universo. Agora. E isso é que realmente interessa!

        Por isso, o mínimo que tenho que fazer é orientar o mais possível a atenção/energia /sentir para o que é positivo, potencialmente criativo e valorizável nesta minha estadia.

        O resto… o resto são apenas detalhes “decorativos “ do filme e desta nossa existência! Mesmo que alguns deixem “riscos na película” ou “marcas e mossas” no trajecto percorrido.

        Um abraço!

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    1. Boas, Miau!,

      Os óculos que focam as belezas de uma montanha anuviada são os mesmos que por vezes se demoram numa paisagem menos enternecedora. Abre-se o baú e lá se vê toda a sorte de memorabilia. No fim de contas, sou mesmo feito de partículas positivas e negativas — o alfabeto apenas transcreve tais estados quânticos.

      Abraços brasileiros,

      P.

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