Sátiras existenciais

Jorge G. Castañeda disse certa vez que o mundo é um estereótipo. Ou melhor, que a sociedade moderna amiúde é pautada por coleções de esteriótipos: os latinos preguiçosos (la siesta, samba, caipirinha), os britânicos pontuais (Big Ben, metropolitanos/comboios/autocarros que saem no horário previsto), os alemães perfeccionistas (rigor, controle de qualidade, indústria automotiva), os franceses metódicos (etiqueta, dandismo, perfumes). A lista é interminável.

E que tal este clássico e esclarecedor experimento psicológico? Dois indivíduos, um é médico, o outro é civil. Vestem o médico com roupa civil (t-shirt azul, jeans, sapatos confortáveis) e o civil com roupa de médico (jaleco branco, instrumento para auscultação do peito etc.). Dentro de uma sala colocam pessoas aleatórias que não fazem ideia do que está a acontecer. O médico vestido de civil entra e dá uma série de orientações científicas completamente corretas e verificáveis. Depois, ao mesmo grupo, o civil vestido de médico conta umas tantas baboseiras que nem sequer soam plausíveis. O inquietante resultado: as pessoas tendem a acreditar mais no civil fantasiado de médico do que no próprio médico.

Julgamento pré-conceitual, ou à falta de melhores termos: um jaleco alinhado vale mais do que mil receitas.

Ontem um colega com quem cursei a faculdade de jornalismo confessara-me em tom de bazófia que se surpreendeu sobremaneira quando descobriu que eu estava a praticar crossfit: «Não sabia que os intelectuais metiam-se nesses lances…» A frase deu-me cabo da cabeça. Por mais coisas estranhas que eu seja, intelectual definitivamente não é uma delas, tentei explicá-lo antes de perguntar, à guisa de pesquisa metodológica, em que lances, afinal, metem-se os intelectuais. Ao que o colega me responde: «Ora, clube do livro, seminários sobre literatura chinesa, associação dos apreciadores de James Joyce, coisas assim».

Estamos todos a perceber a ideia. Não pretendo me alongar mais do que o necessário. Gostava apenas de terminar com outra constatação padronizada. Os tipos que criticam quem pratica exercício físico são, regra geral, os mais «adiposos» (para dizê-lo com carinho), não têm qualquer instrução formal no assunto, e mesmo assim sentem-se muito à vontade para dar pitacos como: tanto quanto eu sei dizer, não estás fazendo os movimentos corretamente. E falam-no enquanto entornam uma latinha de cerveja duvidosa, coçam a barriguinha pelancuda, lambendo os restos de comida entre os dedos.

— P. R. Cunha

6 thoughts on “Sátiras existenciais

  1. Axho curioso os rótulos. Não os aprecio. Mas sempre deitam uns e outros em mim e eu observo. Vez outra solto um sorriso branco e pronto. Qualquer dia desses faço uma lista. Quanto ao exercício, não prático (faço apenas alongamentos) , mas sempre peço aos mais dispostos que o pratiquem por mim também.

    Bacio

    1. Gosto das catalogações, aprecio-as — mesmo que, muitas vezes, apenas mentalmente. Se colam-me etiquetas, no entanto, costumo arrancá-las fora, ou colar outras por cima, de modo a formar um amontoado de rótulos difícil de perceber.

      Espero que faças (e publiques) a lista, caríssima Lunna.

      D’aqui mando-te os abraços,

      P.

  2. Adoro uma desconstrucao, seja descarada ou sutil mesmo. A mim me dao muitos rótulos, dependendo da lua, eu os confirmo. Outrora, deixo a pessoa quebrar a cara mesmo ou descobrir-se a si, enquanto me define, pois nao. Como migrante, negra, nordestina tenho uma palheta de clichês disponível. Às vezes, assumo até uma personagem. Freud deve explicar. 😉 e também inconscientemente rotulo pessoas e luto comigo mesma para nao deixar que isso influencie no meu comportamento com elas. É exercício pra vida toda, mas bora lá. Bj.

    1. De fato, Dani… Os rótulos que definem ou que repelem. Lidar com eles, aceitá-los, ignorá-los. Se rasos, aprofundá-los; se repletos, equilibrá-los. No meu caso, evitar, amiúde, os superlativos — para cima e/ou para baixo.

      Concordo plenamente: exercício até aos últimos suspiros.

      Muitos abraços para ti,

      P.

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