Excertos de possibilidades

De um texto a escrever: como o crossfit modificou a minha forma de lidar com a escrita — desafiar-se constantemente, saúde de corpo & cérebro (vide escritores japoneses [Mishima, Murakami, Tanizaki, Kawabata, Miwa]), não subestimar os próprios limites &, o mais importante, continuidade, rotina, manter a máquina trabalhando (em física: momentum).

Lembrar-me de assistir:

Letter to Jane (Godard/Gorin, 1972);
Persona (Bergman, 1966).

Andrei Tarkovski & a obsessão pelo processo criativo. Nos anos 1970, três versões diferentes de Сталкер (Stalker). Contato de toda a equipe de filmagem com materiais altamente tóxicos de usinas/fábricas desativadas em Tallinn. Longas exposições. Possível causa das mortes de Alexandr Kaidanovsky (o Stalker), Anatoli Solonitsin (o Escritor) & do próprio Tarkovski: contaminação industrial.

Esta minha estranha necessidade de também explicar, seguidas vezes, o que faço, o que estou a fazer, a relevância — certo desconforto diante da pergunta: por que diabos escreves literatura? & a minha atitude defensiva & explosiva ao dar as explicações mais esdrúxulas possíveis.

Dois sonhos que se repetem frequentemente. #1: estou a afundar num pântano & escuto uma voz andrógina: «A cura para um velho amor não é um novo amor, mas novas dores, novas decepções». A voz mete imenso medo. Acordo pouco antes de ser engolido pelo pântano. #2: estou deitado numa cama & há uma arma automática apontada à minha cabeça. É preciso dormir assim, com a arma a poder disparar a qualquer momento.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

4 opiniões sobre “Excertos de possibilidades”

    1. Querida Cris!,

      Por algum motivo técnico-misterioso só me deparei com o teu comentário nesta estranha e esfumaçada tarde brasiliense, 19 de agosto. As coisas pegam fogo por aqui (no Congresso Nacional, nos galhos contorcidos e não só).

      Aproveito a ocasião para te dizer que o Paraquedas que enviei ao teu antigo endereço frankfurtês voltou-me a casa — segundo o carimbo (e o pouco que sei de língua alemã é de corar-me as bochechas), não houve quem recebesse o livrinho à porta.

      Aguardo pelas novas direções.

      Muitos abraços do

      P.

      Gostar

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