Domingo paternal

Para Evandro de Oliveira Cunha, meu pai

Os semióticos fazem-no pensar/refletir a respeito das gavetas. Quando jornalista: pavor da palavra «gaveta» (s. f., cada uma das caixas corrediças que se embebem nos móveis e servem para encerrar objetos). O editor a dizer: o teu texto está certinho, ótimo, mas não encaixa nas próximas edições; teremos (e quem além dele teria esse poder?), sim, teremos de colocá-lo na gaveta. À espera, o limbo, purgatório. Depois, já escritor (ou a dizer-se um): a gaveta das acumulações, das empreitadas experimentais, os desencaixados (também uma espécie de purgatório, a antecâmara do lixo — o querer jogar fora, o medo de se arrepender depois). Ou mesmo aquela outra gaveta, mais branda, mais otimista, onde ele coloca o material de pesquisa, as anotações para o próximo romance a ser escrito.

— P. R. Cunha

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