Período sabático / primeiras impressões sobre o vindouro passeio chileno

O ritual matutino de sempre: acordar às 7h20, tomar o duche gelado, descer para preparar o pão com manteiga, o suco, a chávena de café, ir ao próprio gabinete, dedicar-se às primeiras leituras, aguardar as faíscas, uma frase, uma palavra, a vírgula — escrever, sentir-se poderoso, firme, dizer-se: «Não queria estar em nenhum outro sítio»; sentir-se em casa, absolutamente em casa.

As viagens, assim como a própria fisionomia, modificam-se [aparência/significado/propósito/etc.] no decorrer do tempo: o tal riacho que depois de passar sob a ponte jamais voltará a ser como antes. Entropia (é cedo demais para se falar disto).

Não se trata de uma reflexão sobre a irreversibilidade do tempo, mas sim a respeito do abandonar rituais matutinos de sempre. Ir-se alhures.

A imagem (R. Barthes): o lançamento de foguetes: procedimento feito com abandonos controlados [é tema para todo um livro!] — começa-se com um grande foguete cheio de compartimentos para combustível; à medida que foguete consegue se livrar das garras gravitacionais do planeta, inicia-se o processo de desacoplamento. O aparato gigantesco transformara-se numa cápsula espacial a conter apenas o necessário.

Meter-se em viagem é deixar quase tudo atrás de si, levar na bagagem apenas o imprescindível.

Nos últimos dois ou três anos, a cada partida, a cada nova jornada, pensa-se sobre o período em que vivera na Rússia, naquela época (24 anos de idade) em que a plena juventude permitia os sonhos mais disparatados, mais inatingíveis. Porque, como se sabe, o jovem longe da pátria-mãe é o vencedor — nada lhe parece impossível.

No entretanto:

Viagens atuais (faltam três semanas para o embarque [Chile]): realistas, objetivas, idealizações controladas. Não se sai mais em busca de algo, ou de alguém. Viaja-se atrás de si, movido pelo paradoxal desejo de se perder para, ao dobrar de uma esquina estrangeira, encontrar-se novamente. 

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

11 opiniões sobre “Período sabático / primeiras impressões sobre o vindouro passeio chileno”

      1. Já li o seu livro até a página 88 durante o vôo Bruxelas-Viena-Tirana. Tomando notas.
        De Bruxelas a Viena estava ao meu lado um senhor de idade lendo um livro em árabe. Eu lia o seu da esquerda p direita, e ele lia da direita p esquerda. 😆

        Liked by 1 person

        1. Adorável imagem do sentido literário.

          Uns começam de cá, outros de lá.

          Penso naquela anedota, de como deve ser complicado contar piada aos árabes — pois eles já sabem o final desde o início.

          Etc.

          Gostar

  1. ¡Qué envidia (sana) me das Paulo!. Sin duda, viajar alrededor del mundo es la mejor forma de aprender las múltiples culturas y costumbres existentes.
    Buen viaje amigo.
    Fuerte abrazo.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s