Obstáculos

Conversa com a Jessy, à noitinha. O que define um ser humano. Atualmente –> o trabalho, a profissão; perguntam: o que você é? Geraldo é arquiteto, Priscila engenheira, Otávio cabeleireiro. O mercantilismo (principalmente desde a Revolução Industrial) que rotula. Você é aquilo que faz (?), ou talvez (outra hipótese): conjunto de atributos –> uma pessoa encantadora, hostil, esforçada, severa, batalhadora, preguiçosa. Notar, porém: atributos pessoais (via de regra) são adjetivos com conotações positivas — tendem a ser brandos. Suponhamos o Fred; Fred trabalha como contador numa empresa detestável; Fred chega em casa exausto, infeliz (a imagem moderna da insatisfação [passo o dia todo num trabalho odioso!]) — Fred não quer ser definido por aquilo que faz; meu «eu», ele diz, vai muito além; sou muito mais do que isso; não sou um mero contador; em verdade, odeio a contabilidade etc. Agora, ali está Miranda, pinta paisagens –> adora/venera o aspecto calmo e tranquilo que adota ao preparar tela sobre o cavalete, as cores, os pincéis, o Händel a tocar nos auscultadores. Sente-se em casa, confortável (a figura é esta: o lar, o abrigo). A pintura é tudo para si; Miranda confunde-se com os próprios quadros. Diferentemente de Fred: Miranda + atividade = própria definição (ou características previsíveis/plausíveis [criatividade, curiosidade, improvisos, introspectividade, não conformismo {e assim por diante}]) de artista plástico; ao que Miranda se envaidece (sim, sou uma artista, sou [também] os quadros que pinto). Aquilo que fazemos/criamos (fiz isto com as minhas próprias mãos), aquilo que reflete o nosso estado interior (sem misticismo), aquilo que nos faz sentir orgulhosos — eis o que poderia nos definir. Os adjetivos, os rótulos, os atributos vêm/viriam desse tipo de empreitada, naquela altura em que até conseguimos escutar os batimentos do coração.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

2 opiniões sobre “Obstáculos”

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