Certos valores de arte / alegorias

Compartilho estas hipóteses com o objetivo de continuar minhas tentativas de descrever possíveis verdades ocultas que algumas manifestações artísticas carregam em si. Trata-se de um olhar franco e direto, mas longe de ser angustiado. Pois, quando posso, afasto-me do abismo — de aí recebo um colorido diferente da vida e sinto-me já deveras recompensado.

Sabe-se que a teoria de evolução das espécies do afável Charles Darwin baseia-se em características de variações. Em suma, aqueles organismos que se adaptarem às intempéries terão mais chances de se reproduzir e consequentemente de compartilhar o próprio material genético. Chama-se a isto seleção natural, um dos motivos pelos quais o ser humano é o único primata bípede do gênero Homo ainda vivo.

Em um exercício adaptativo — à laia de manter a terminologia adequada —, poder-se-ia utilizar o conceito geral da teoria de Darwin à sobrevivência das manifestações artísticas humanas.

Com finalidades ilustrativas, comecemos com as peças de William Shakespeare. Hamlet foi escrita no início do século XVII e ainda hoje é encenada nos palcos modernos. Em termos evolutivos, trata-se de um titã difícil de superar. Nesta mesma linha de raciocínio, ainda lemos os livros de Goethe, as sátiras de Swift, os contos de Dickens, ainda admiramos a Mona Lisa, ou as esculturas de Michelangelo, tantos ainda se emocionam diante da Rapariga com o brinco de pérola, de Vermeer. Mas, por quê?

No livro O que é a arte?, Nigel Wartburton discorre com extrema elegância sobre os desafios de se identificar uma intervenção artística. Conceito maleável, que depende da época, do contexto, de um grupo de fatores altamente arbitrários. Para não cairmos nas valas infinitas da subjetividade, aconselho simplificarmos a paisagem e lidarmos primordialmente com os aspectos emocionais da arte. Ou seja, arte a ser aquilo que gostaríamos de guardar, manter connosco, pois causa-nos boas sensações.

A obra de arte precisa de dialogar com aqueles que se deparam com ela. Ainda assistimos às peças de Shakespeare porque elas conversam com a plateia, retratam situações que continuam a ser relevantes — apesar dos mais de quatrocentos anos de diferença. O mesmo valeria para os quadros de Van Gogh, ou os sonetos de Camões. Voltamos a esses objetos mistificados porque queremos sentir aquilo de novo, e de novo, e de novo. Não é apenas uma pintura de um Quarto em Arles, é também o meu quarto, é como eu me sinto por dentro.

A linguagem, os símbolos utilizados pelo artista tornam-se então de suma importância para a experiência do observador, que vai absorver a obra de acordo com as próprias expectativas. 

Antes de seguir adiante, sugiro analisar este exemplo. Duas reproduções de O ensaio de Ballet, 1873 pintado por Edgar Degas.

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A primeira está embaçada, quase não é possível distinguir os elementos da pintura. Se não soubéssemos que se trata de Edgar Degas, talvez nem conseguíssemos identificar as bailarinas aquecendo-se. Já a segunda reprodução é uma tentativa de retratar fielmente a obra original — claro, com as devidas considerações cromáticas.

O propósito deste exemplo é mostrar que a nossa relação com a obra se modifica de acordo com a complexidade dos elementos que nos são apresentados: aquilo que o nosso cérebro consegue reter, misturar, reconstruir/desconstruir.

Tais reflexões também se mostram pertinentes quando observamos a constante transformação linguística nos meios de comunicação modernos. Ressalto que ainda estou a analisar o ponto de vista do observador, no sentido de optimizar a experiência. Pensemos nas intervenções epistolares — para muitos, uma edificante forma de se expressar artisticamente. Não é preciso ser nostálgico, pode-se bem trocar as cartas pelos pixels dos correios eletrônicos. Interesso-me pela mensagem inserida. Um amante escreve palavras desconjuntadas e termina o bilhete com um qr t v (i. e., quero te ver). Fosse o caso de se estudar se tais abreviações fazem ou não diferença na experiência do receptor. 

O qr t v (embaçado) e o quero te ver (nítido) seriam exemplos análogos aos dois quadros de Degas acima? 

Se recebo um texto abreviado penso que a pessoa que o escrevera estava sem tempo, às pressas, tinha coisas mais importantes para fazer. Não quero guardar uma carta (uma arte) assim. Seria esse um dos motivos pelos quais tantas formas contemporâneas se revelam descartáveis? Pensemos brevemente nas músicas que vão-e-vêm, nos filmes que não contam nada, nos livros que se repetem…

O empobrecimento das mensagens é, sem dúvida, fator preponderante na seleção natural das obras de arte. E é provável que a longevidade de Shakespeare, Dostoiévski, Cervantes tenha ainda muito a nos dizer sobre este processo.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

8 opiniões sobre “Certos valores de arte / alegorias”

  1. Caro P. R. Cunha, encontrei o teu site por acaso e estou encantada com os teus textos. Este aqui sobre arte está maravilhoso! Sou editora de uma revista cultural que está começando aos poucos e gostaria de saber se estaria interessado em participar da nossa próxima edição. Aguardo notícias. Bjs, Amélia

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  2. Na segunda, conversava sobre o olhar e a capacidade de enxergar além do que a luz nos oferece… e agora leio-te e penso no além da luz. Fiz uma pausa. Liguei Elis e seu redescobrir, bebi um gole de água. Respirei fundo… reli um verso de Gilka e tentei me lembrar de antigas sensações. A primeira vez que vi Tarsila na parede de um museu e me senti lá dentro do quadro-tela. Me senti uma daquelas cabeças. Depois li a respeito da mulher e conheci Anita. Me espantei com seu Homem Amarelo e só consegui pensar em Mário de Andrade e seu espanto, queria beber desse mesmo gole. Respiro fundo de novo Fecho os olhos. Fico quieta. Volto a Gilka e me lembro da biblioteca onde fui a ela apresentada. Leio-te e penso que os símbolos são sempre os mesmos e são outros porque somos os mesmos e somos outros. Ouço Elis dizer “como um animal que sabe da floresta (memória) redescobrir o sal que está na própria pele (macia) redescobrir o doce no lamber das línguas (macias) redescobrir o gosto e o sabor da festa (magia)”…
    A arte é olhar para dento e saber que o lado de fora se modifica, mas o que temos dentro se transforma…
    Ah, vou aos goles.
    boa noite

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    1. Algumas mensagens emudecem — não porque arbitrárias/totalitárias, mas porque reflexivas, profundas. Seria o caso de não acrescentar ruídos desnecessários; muito já foi dito, o bastante. Lidar com fazendas artísticas (algo que sai da nossa própria cabeça e revela-se ao mundo [ou pelo menos a um micromundo]) sem dúvida transforma o próprio espaço-tempo. Somos muitos outros quando terminamos uma obra, um quantum sem identidade fixa observável. A tal «ambivalência incessante», ou terapia para não enlouquecer…

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  3. Muito interessante este “afastamento do abismo” do nosso escritor!
    Sem dúvida que este lado emocional é fundamental para a “longevidade” da obra. Totalmente de acordo, porque era impossível não estar.
    Mas, creio que o “mas” que todos os assuntos têm em anexo, será certamente alvo de futuras análises do nosso escritor. Porque o mercado e o famoso dinheirinho que tudo gere, tem a capacidade de “substituir” muito bem as tais emoções e dar longevidade a muitas criações artísticas.
    Esperamos mais “verdades ocultas”!
    Desejo um domingo bem tranquilo!

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    1. Dulce, querida,

      Esta mensagem despertou-me bons sentimentos filosóficos, a respeito dos quais devo escrever durante a semana. Quer queira quer não, ainda vivemos num mundo mediado — pelas editoras, pelas galerias de arte, pelo mercado e não só. A Internet, sem dúvida, democratizou imenso, porém, no meu ponto de vista, tem auxiliado maioritariamente aqueles que gostam de divulgar as próprias criaturas sem compromisso, como se diz. É a velha discussão da praxe: era possível viver de arte, é possível, será possível? Para quem só sabe mexer com essas coisas, estar neste mundo de imprevisibilidades é deveras perturbador.

      (Isto, no entanto, nunca se mostrou um impeditivo categórico. As pessoas, felizmente, continuam a criar a despeito das incontáveis batalhas que precisam de lutar no meio do caminho.)

      Abraços,

      P.

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