Outros efeitos colaterais (porque «Tractatus logico-philosophicus» [L.W.])

A história do pensamento moderno mostra que para compreender filosoficamente o mundo em que se vive é preciso antes retirar-se dele, ir alhures.

Wittgenstein isolado num fiorde norueguês a filosofar a respeito dos primórdios do século vinte, aquele que se tornaria o Século da Morte. O próprio Heidegger a sobreviver longe, numa cabana dentro da Floresta Negra (adequada nomenclatura), porque a tarefa de se refletir sobre a vida humana é mesmo qualquer coisa extenuante. Walter Benjamin sem casa, sem pátria, sem quase ninguém, perde a própria sanidade em nome da filosofia.

Esse movimento de ir-se para fora, da busca pela solidão, e assim — espera-se — os pensamentos poderiam ser traduzidos com palavras inteligíveis àqueles que ficaram, que não podem ou não têm coragem de encarar o retiro indecoroso. 

Amiúde, os filósofos-eremitas encontram mesmo respostas significativas, aproximam-se, ou melhor, creem se aproximar das «verdades», e é tudo tão luminoso que a claridade acaba por deixá-los um bocado desassossegados. Quando precisam de voltar à convivência com toda a gente (penso ainda em Wittgenstein, lastimavelmente solitário), carregam na bagagem reflexões tão perturbadoras, tão inquietantes que já não dão conta.

A empreitada, diga-se, precisa de ser feita de livre e espontânea vontade. Ir até ao fundo do poço dos próprios pensamentos, para as camadas mais sombrias, até às águas repletas de lodo, inadequadas ao consumo humano.

Sim, voltam como um soldado que retorna do campo de batalha: alucinados e traumatizados; sem nenhuma paz interior, nenhuma alegria de existir. Não necessariamente arrependidos, porém (repito) com um grave sentimento de inadequação. Enxergam agora o mundo de uma maneira muito singular, abriram as cortinas, têm muito o que dizer. Mas quase ninguém para ouvi-los, compreendê-los.

O exílio transformara-os numa espécie alienígena. E o fardo, pelos vistos, é ter ainda de continuar a viver entre terráqueos.

— P. R. Cunha


35._Portrait_of_Wittgenstein

Retrato de Wittgenstein em 1929 — sobre as dificuldades de se retornar de nenhures.

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

5 opiniões sobre “Outros efeitos colaterais (porque «Tractatus logico-philosophicus» [L.W.])”

  1. Não é como se existisse uma regra universal que diz que o mais profundo do ser humano é apenas um amontoado de caos e desespero, contudo, o que há de melhor em nós mesmos já fazemos questão de mostrar, o que sobra então é o que contemos, e o que contemos fica escondido, desejos, vícios, medos, arrependimentos… admiro muito aqueles seres humanos pacíficos que falam em abraçar e aceitar cada um dos pequenos demônios que vivem em nós para que esses mesmos demônios não nos consumam e outras milhares de dicas para quem gosta de ler um livro de auto ajuda, não é meu caso não gosto destes livros e tenho a leve impressão de que você também não…

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    1. Querida Rejane,

      Estes meus quase trinta e quatro anos de planeta Terra mostraram-me que há aqueles que encaram a própria finitude e há também aqueles que a ignoram. Ambos habitam o mesmo espaço, ao mesmo tempo. Criam para si toda a sorte de subterfúgios (pois o filosofar, o ir-se para dentro de si mesmo, é também um abrigo). No fim das contas, queremos todos sobreviver — aproveitar de alguma forma os dias que se passam. Desde que não haja nenhum tipo de doutrinação — à moda: o meu jeito é melhor do que o seu —, acho que toda a experiência é válida.

      Mas não sei se me explico.

      Abraços,

      P.

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  2. Pensei muito sobre este texto. Não sei… Sempre penso que o indivíduo é um valor precioso que demorou muito para a humanidade forjá-lo. Mas, sem o social, a comunidade, creio que se esvai. Retiro? Sim, por um período. Creio que teria que ser uma relação dialética.

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    1. Léo,

      Por algum motivo WordPress só me comunicou a respeito desta tua mensagem agora. Peço-te, portanto, muitas desculpas pelo atraso.

      A mim me parece que o retiro mais saudável foi aquele empreendido por Montaigne. Construiu para si um castelo, canto isolado para os estudos do pensamento, para a solidão — porém sempre com o nobre objetivo de voltar para os seus um ser humano melhor, mais generoso, aprazível.

      Bonita gangorra: vai, esconde-se, melhora-se, volta.

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