Canícula

Gostava hoje de falar brevemente sobre os múltiplos significados do termo «cachorro». No Brasil o cão é tido como um animal que preza pela lealdade, muito companheiro, atencioso, pouco egoísta, conciliador. Em suma: o melhor amigo do homem — como já se leu tantas vezes nas memórias de celebridades apaixonadas pelos caninos. É mister, no entanto, lembrar-vos que a inofensiva palavra «cachorro» pode também ganhar juízos pejorativos a depender do contexto em que ela se mostra inserida. Por exemplo: um casal irado está a brigar na varanda de um apartamento em Niterói-RJ; a dama não hesita em chamar o cavalheiro de cachorro; o cavalheiro, por sua vez, não se intimida e chama a dama de cadela. Sabe-se que os alemães têm uma forma de xingamento análoga: linker Hund, ou o cão sinistro. Totem, a representação animalesca das frustrações humanas, «a suposta sujeira, heresia do cachorro» [Wolfram Eilenberger]. No entanto, num triste entardecer invernal, quando a solidão aperta, lá está o cão que abana o rabo para o dono, volta a ser o maior companheiro de sempre.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

4 opiniões sobre “Canícula”

  1. Me lembrei da expressão que aprendi ao chegar a Sampa… o cão chupando manga. Levei algum tempo para compreende-la, se é que compreendi. Meu boxer Patrick adorava manga e rasgava a casca, cuspia, sugava o fruto e deixava branco o caroço. Uma arte. E quanto mais o observava, menos entendia a expressão. Outra expressão que não combina é “vida de cão”. Os meus, tem uma vida deliciosa e a maioria dos cães tem vida agradável. Claro que há um ou outro que sofre nas mãos dos humanos e imagino que se eu chamasse o meu cão de “humano” certamente sentiria-se ofendido. rá

    bacio

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    1. O twist chamar cão de humano foi impagável, Lunna.

      Tive um boxer também, o Bartolomeu. Adorava uma manga, mas confesso que a cena se tornava grotesca (no bom sentido, quero dizer, no sentido «cômico-curioso») depois de cinco minutos de — na falta de melhor termo — degustação.

      Bart sempre precisava de um banho completo depois dessas refeições ao ar livre.

      Mas dormia e se divertia na maior parte do tempo. Quando ficava com a boca aberta, língua de fora, dir-se-ia que estava a sorrir, contente por estar vivo.

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