Canícula

Gostava hoje de falar brevemente sobre os múltiplos significados do termo «cachorro». No Brasil o cão é tido como um animal que preza pela lealdade, muito companheiro, atencioso, pouco egoísta, conciliador. Em suma: o melhor amigo do homem — como já se leu tantas vezes nas memórias de celebridades apaixonadas pelos caninos. É mister, no entanto, lembrar-vos que a inofensiva palavra «cachorro» pode também ganhar juízos pejorativos a depender do contexto em que ela se mostra inserida. Por exemplo: um casal irado está a brigar na varanda de um apartamento em Niterói-RJ; a dama não hesita em chamar o cavalheiro de cachorro; o cavalheiro, por sua vez, não se intimida e chama a dama de cadela. Sabe-se que os alemães têm uma forma de xingamento análoga: linker Hund, ou o cão sinistro. Totem, a representação animalesca das frustrações humanas, «a suposta sujeira, heresia do cachorro» [Wolfram Eilenberger]. No entanto, num triste entardecer invernal, quando a solidão aperta, lá está o cão que abana o rabo para o dono, volta a ser o maior companheiro de sempre.

— P. R. Cunha

4 opiniões sobre “Canícula

  1. Me lembrei da expressão que aprendi ao chegar a Sampa… o cão chupando manga. Levei algum tempo para compreende-la, se é que compreendi. Meu boxer Patrick adorava manga e rasgava a casca, cuspia, sugava o fruto e deixava branco o caroço. Uma arte. E quanto mais o observava, menos entendia a expressão. Outra expressão que não combina é “vida de cão”. Os meus, tem uma vida deliciosa e a maioria dos cães tem vida agradável. Claro que há um ou outro que sofre nas mãos dos humanos e imagino que se eu chamasse o meu cão de “humano” certamente sentiria-se ofendido. rá

    bacio

    1. O twist chamar cão de humano foi impagável, Lunna.

      Tive um boxer também, o Bartolomeu. Adorava uma manga, mas confesso que a cena se tornava grotesca (no bom sentido, quero dizer, no sentido «cômico-curioso») depois de cinco minutos de — na falta de melhor termo — degustação.

      Bart sempre precisava de um banho completo depois dessas refeições ao ar livre.

      Mas dormia e se divertia na maior parte do tempo. Quando ficava com a boca aberta, língua de fora, dir-se-ia que estava a sorrir, contente por estar vivo.

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