Ciência de foguete (propulsores)

Quais são/seriam os verdadeiros pensamentos?, ou melhor, há os pensamentos verdadeiros, no sentido de originalidade, ineditismo?; ———— quando se lê/escuta/vê alguma informação e a informação faz sentido (por conta do contexto do receptor [infância, predisposições intelectuais {subjetivas}, experiências diversas {viagens, traumas, amores, amizades etc.}]); depois o sujeito adequa, molda (ou não molda) a própria opinião de acordo com as novas interações. Imagem: pegar emprestado o pensamento de alguém para transformá-lo um bocadinho no próprio pensamento. Colcha de retalhos com fios neurológicos. Admiro muito a literatura de Fulano, leio Fulano, absorvo Fulano — de certa forma, «me transformo» em Fulano. Numa palavra: contradizer-se com contradições alheias para dizer-se.

Sonhar com trechos interessantes; inclusive, dizer durante o sonho: trechos muito interessantes. Acordar, e esquecer. Pois demorou-se muito para tomar as notas.

Lançamento de foguete, queima de combustíveis (RP-1, oxigênio líquido, querosene, 365 toneladas de carbono [entre outros]), o incêndio controlado a expandir gases e a levantar a estrutura do foguete para cima, as nuvens de fumaça, 95% da massa do foguete é combustível, emissões de dióxido de carbono (1352 toneladas de CO2 [aproximadamente]), gases que afetam a camada de ozônio (exposição, raios UV). Ir ao espaço é também deixar um rastro de sujeira para trás; vide os amontoados de satélites desativados que orbitam a Terra e ameaçam criar um anel de lixo impossível de ser descartado.

Agosto de 2003. A tentativa brasileira de lançar foguete (VLS-1 V03), dois pequenos satélites meteorológicos que faziam parte da Operação São Luís. Ou a tragédia de Alcântara, porque o VLS-1 explodiu três dias antes do lançamento, às 13h26, matando 21 técnicos civis que passaram anos a adquirir conhecimentos aeroespaciais, uma perda intelectual cujas consequências são sentidas até hoje, mais de uma década depois do desastre.

Quando um cientista aerospacial morre, perdemos também os universos que eram criados dentro do cérebro dele.

Da mesma forma, quando morre uma escritora como a Agustina Bessa-Luís, morre também a biblioteca dentro dela. O mundo terreno, que até segunda ordem é o nosso único mundo, perde experiências, perde possibilidades. Mas o relógio precisa de continuar: entropia.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

10 opiniões sobre “Ciência de foguete (propulsores)”

  1. É revoltante se esquecer das fantásticas histórias que criamos em nossos sonhos.
    Na minha opinião, os sonhos são os momentos em que somos mais criativos.
    Ali tem muito material inspirador.

    Que desalentador essa realidade espacial!
    Não imaginava que precisasse agredir tanto assim nosso planeta para explorarmos sua vizinhança.

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    1. Vittorazze,

      A minha hipótese é que quando o ser humano sonha ele não está nem aí para nada, tem os pensamentos mais soltos, sem precisar de se justificar, ou de fazer boa figura. Apenas pensa, livremente: atitude que se mostra crucial às fazendas criativas.

      O desafio é manter-se nessa frequência quando abre os olhos.

      (…)

      Mostro-me um bocadinho cético em relação aos pormenores espaciais — não por conta das tecnologias, mas sim pela logística da coisa.

      Os satélites inoperantes — principalmente aqueles que foram lançados no período da Guerra Fria — são grandes ameaças às naves espaciais. Os fragmentos dessas bugigangas estão a viajar a mais de 27 mil quilômetros por hora. Já atingiram, inclusive, algumas missões e causaram danos consideráveis. Basta imaginar o que poderia acontecer quando as viagens interplanetárias ganharem grandes proporções.

      Acho que se querem ir ao espaço com a frequência que estão a estipular por aí, precisarão de largar um bocadinho do romantismo (os noticiários têm muita culpa no cartório, como se diz) e pensar prioritariamente nesses obstáculos.

      DCODE produziu um episódio deveras pertinente a respeito disso tudo, chama-se Space Junk Around Earth. Partilho o vídeo aqui à guisa de comodidade:

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      1. Você não poderia estar mais correto!
        Sem as amarras do julgamento social ou do próprio inconsciente, é no reino de Morfeu que encontramos a nossa melhor versão escritora.
        Se não fosse tão penoso e não exigisse tanta energia, a cada despertar da madrugada me jogaria em cima de um caderninho, afoito com a caneta.
        ____________________________________________________

        Certa feita eu debatia com um colega que defendia estarmos mais próximos (apesar de ainda distantes), de desvendarmos os mistérios do cosmos do que a lógica psicológica por trás do cérebro humano. Como eu defendia o contrário, insinuei que se as grandes corporações farmacológicas investissem parte dos bilhões dos quais possuem, em pesquisas na área, em poucas décadas, ou quem sabe menos que isso, o mapa cerebral e toda sua capacidade de influenciar o desempenho da nossa fisiologia já não nos seriam mais enigmas.

        Veja bem, se todo o dinheiro do mundo (menos de uma centena de trilhão, se não me falha a memória) fosse despendido para explorarmos nossa vizinhança planetária, os resultados seriam coibidos pelos googols de distância/tempo.

        Após assistir a esse documentário elucidador, estou ainda mais inclinado à minha defesa. É desapontante, mas estamos mais perto de presentear nosso globo com um anel de Saturno artificial, do que visitarmos os anéis genuínos de nossos vizinhos no Sistema Solar.

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  2. Talvez o tal potencial não morra com a morte física…. e, para além do que ficou registado em livros, estudos académicos, teses, etc, etc, uma parte fique a pairar, a tocar nos sonhos de alguns, a afagar os sentidos de outros, a fazer cócegas no pensamento e criações de outros e assim por diante.
    Com esta perspectiva, estarão a pairar por aí “pedacinhos” de Augustina(s), de cientistas espaciais e de tantos seres especiais que vieram visitar e iluminar este mundo.
    Porque não?

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    1. Apetece-me associar a mensagem da Dulce com a lei de Lavoisier: a informação total antes de determinado evento é igual à informação total após determinado evento (parafraseio). A matéria que formava a Augustina, que estava organizada de uma maneira que nos foi possível reconhecer a Augustina humana (poder-se-ia dizer assim), continua a existir, a interagir com outras partículas elementares. A ideia de que neste universo nada se perde, apesar das constantes transformações.

      (…)

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