Notas do aeródromo — voltar para casa meio que olhando em todas as direções [seleção de trechos aleatórios]

Os aeroportos — assim como os hotéis — estão cada vez mais iguais. Galeão (Rio de Janeiro) = Humberto Delgado (Lisboa); praticamente idênticos. As mesmas lojas, as mesmas roupas, as mesmas «pessoas».

Não sei quem disse isto: o Rio de Janeiro não é mais uma cidade bonita, mas um lugar bonito para uma cidade. Baía de Guanabara tem um cheiro esquisito (benzina, gasóleo, dejetos humanos, peixes em decomposição [haverá peixe de duas cabeças nas profundezas da baía, pergunto ao taxista, que rir-se sem saber a resposta]).

Niterói não tem aeroporto.

Starbucks ao portão B 34 (embarque doméstico) — o café da aldeia global (McLuhan/Fiore); é tudo tão estrangeiro que quase me assusto quando a funcionária à moda teen fala-me em português.

A sala de espera para as pessoas que têm muito mais dinheiro do que todos nós chama-se PREMIUM LOUNGE. (Observo um homem com fato Armani que entra e desaparece no LOUNGE e fico com a impressão de que a mala de ouro dele vale tanto ou quanto um Learjet de médio porte.)

As famílias numerosas do século XXI (pai, mãe, menino[a] de colo, outras duas crianças que ficam a puxar papá-e-mamã porque querem a meia Puket com cisne bordado), o desespero dos pais, a pressa, um certo arrependimento — tipo: o que fizemos de nossas próprias vidas etc. Para onde vão?

Fila para o embarque. Um padre idoso (devidamente vestido de padre, roupa eclesiástica [batina toda preta, colarinho branco, crucifixo]) a enviar mensagens pelo WhatsApp, numa altura leva o telemóvel à boca e manda um áudio com voz desaforada: valha-me!, estamos embarcando, graças a Deus. Parece que só eu acho a cena curiosa/absurda/um bocadinho perturbadora.

Pensamentos inquietantes, descolagem-aterragem, sentado, poltrona perto da janelinha. Olhar para os passageiros à volta e dizer comigo mesmo: então estas podem ser as últimas pessoas que verei. Sentir-se um pouco desapontado (i.e.: talvez eu preferisse morrer com outras pessoas).

Não sou católico, mas preciso de confessar que o facto de termos 3 (três) padres a bordo me tranquiliza à beça — mais do que eu estaria disposto a admitir noutras circunstâncias.

— P. R. Cunha


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Literature only: enfim uma aeronave que compreende a minha filosofia de vida

3 thoughts on “Notas do aeródromo — voltar para casa meio que olhando em todas as direções [seleção de trechos aleatórios]

  1. Coisas e casos de uma viagem. No final da história, quanto melhor, melhor. Você está bem acompanhado, se quiser confessar seus pecados. Boa leitura As avaliações do aeroporto são divertidas. Na variedade de pessoas e situações, há o prazer de fazer uma viagem. saudações

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