Coração obsoleto

Estou no apartamento
que me servira de refúgio
nos últimos tempos e que
em breve será a morada
da minha avó paterna.
A sala mostra-se repleta
de caixas e livros
e toda a sorte
de miudezas de papelaria.
Vovó gosta de ler, então
talvez eu deixe cá algumas obras
mais amenas que não assustem
a sensível integridade
de uma simpática nonagenária.
Perto da minha edição comemorativa
do Palmeirim de Inglaterra
encontro um retrato de papai.
Papai tem rosto sério e
compenetrado ao esboçar
um discreto sorriso,
veste t-shirt branca e
olha com olhos atentos
para a câmera que está
a lhe fotografar.
Atrás do 3 por 4
tal dedicatória que
arranca-me não só as lágrimas
como também pedaços
deste meu já obsoleto coração:

«Ao meu filho Paulo Renato
em qualquer circunstância
eu sempre estarei do seu lado.
Pai te ama muito.»

— P. R. Cunha


papai

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

12 opiniões sobre “Coração obsoleto”

      1. No tienes por qué asustarte. A mí personalmente me reconforta pensar que mi padre está conmigo de alguna manera. Es lo único que me queda.
        Saludos desde el otro lado (del charco, jaja)
        ;O)
        Cris.

        Gostar

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