Pensamentos (aparentemente) arbitrários de um tipo satisfeito com a própria fazenda literária

§ No início dos anos 2000, comprei um telescópio refrator de 110 milímetros com o objetivo de observar as ondas atmosféricas de Júpiter, os sombrios anéis de Saturno, e talvez até descobrir algum asteroide tinhoso que pudesse atingir a Terra — ao qual eu daria um qualquer nome latinizado: Paulus Renatus Letalis.

§ De modo genérico, quem adquire um telescópio refrator de 110 milímetros está basicamente a dizer: sou amador, sim, mas não quero apenas brincar de Nicolau Copérnico. Trata-se de um tipo com certa disciplina, que gosta de analisar os astros celestes com afinco, e no entanto não pretende pôr as receitas (e a sanidade) da própria família em risco largando tudo (emprego etc.) para se transformar num astrônomo a tempo inteiro.

§ Meus pais formaram-se em medicina, de forma que, em criança, não tive uma biblioteca repleta de romances e outros gêneros de ficção. Por vezes eu entrava às escondidas na Sala de Pesquisa, que era como papai costumava chamá-la, e abria aleatoriamente um livro de anatomia só para me deparar com fotos e ilustrações de doenças estranhas, e corpos deformados, e peles com hematomas inacreditáveis.

§ Passei muitos anos a lamentar essa lacuna na minha chamada «Formação de Ficcionista». Lia e ouvia histórias incríveis de autoras e autores famosos que em criança tiveram à disposição verdadeiros haréns literários, mais de mil obras dos mais diversos expoentes da tal literatura-que-vale-a-pena. Os meus pais ofereceram-me, no entanto, bibliografias minuciosas sobre a candidíase, a história da urologia moderna, como curar a infecção urinária, os sintomas do cálculo renal, tratamentos adequados das disfunções miccionais e não só.

§ Falando retrospectivamente, não é de assustar o facto de eu ter me tornado um escritor com inclinações lunáticas.

— P. R. Cunha

14 thoughts on “Pensamentos (aparentemente) arbitrários de um tipo satisfeito com a própria fazenda literária

  1. Talvez tenha se tornado escritor para criar todas as histórias que não conheceu na infância… Ou pode ser que, na ausência dos livros de ficção, você imaginou histórias incríveis, que ficaram dentro de você… E agora você as escreve!

    1. Certeiro diagnóstico, Bia.

      Muitos amigos que tinham acesso a bibliotecas bem mais completas jamais desenvolveram o interesse pela escrita. E é sempre bom manter uma distância segura dos grandes astros — pois têm monstruosa força gravitacional, que suga a criatividade alheia.

      Ótima semana para si,

      P.

  2. Para nós, ainda bem q não é o sr. dr., mas o escritor que deixará seus escritos para a eternidade, e ajudará a curar muitas mentes, fará rir muitas gerações, … É verdade, q tb causará alguma ansiedade, mas nem tudo é perfeito, não é? 😉

    1. Oh, Miau… Obrigado pelo carinho da praxe.

      O que seria do dia, sem a noite.
      Do Sol, sem as tempestades.
      Da água, sem a sede.
      Da ansiedade, sem os ansiolíticos.

      1. Paulo, la inspiración y el ánimo me han abandonado a partes iguales. Sólo me salen emociones tristes de las que no quiero contagiar a mis lectores, aunque por otra parte supongo sería un buen desahogo para mi alma. Pero no quiero compartir esos momentos. Sólo me satisface compartir palabras positivas. Algún día volverán.

        Te he echado de menos.

        Un beso y abrazo desde el otro lado del océano.

        Cris

        1. Oh, Cris!, querida amiga,

          No se trata de contagiar lectores, sino como tú has dicho: de desahogar/aliviar el alma. Tú no debes nada a nadie. Necesitamos escribir, siempre que eso nos apetezca. El tiempo es tan corto. El viaje es tan corto. No guardes nada dentro de ti. Abre un poco las ventanas. Y sabe que aquí la casa es tuya también. Aparece siempre que quieras.

          Abrazos tropicales,

          P.

          1. Qué sabias me parecen tus palabras como siempre Paulo. Realmente es todo un desahogo la escritura, y sé que debo volver a ello aunque sólo sea por compromiso conmigo misma.
            Fuerte abrazo.
            Cris

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