Poema para Tomas

Acordo de manhã cedo
e estou a fazer o pequeno-almoço
quando uma figura felina misteriosa
surge nos limites da moldura da porta
de vidro da cozinha onde fico
a beliscar o pão com geleia de frutas vermelhas
bebericando o café sem açúcar.
Quem olha para este gato
enquanto compreende-se ao sabor
da cafeína
não deixa de se maravilhar com o aspecto
do animal que tem as cores de
uma montanha de neve
a derreter sob a luz
do sol brando
geleira com faixas de pedra marrom
a surgir após um longo e melancólico inverno.
O gato visita-me vez sim vez não
vez não vez sim vez não
o bastante para eu —
com aquele distanciamento protocolar
de quem teme envolver-se de mais —
ter-lhe dado nome:
Tomas
O dócil felino fica a miar
até que a porta esteja aberta
e vem fazer carinhos nos meus pés
como forma de profundo agradecimento
pela tigela de leite que coloco lá fora.
Quando Tomas não aparece
por motivos felinos
sempre difíceis de compreender
a tigela de leite fica cheia
e vem até mim um pensamento
pensamento formado
pensamento resolvido
de que o bicho pode não voltar mais.
E é assim que vejo o Tomas
microcosmos das irregularidades
da vida.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

4 opiniões sobre “Poema para Tomas”

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