Todos os papéis do mundo

Já escrevi algumas vezes que este blogue iniciou-se depois de um período particularmente difícil de minha vida, e desenvolvera-se na esperança de conseguir desafogar, como se diz, tudo aquilo que eu estava a produzir em excesso, o material que ficava guardado dentro de gavetas acumulando poeira e a virar casa das traças.

Não havia, ou melhor, jamais houve qualquer interesse financeiro, ou demandas arbitrárias, ou sistema de trocas indecorosas, ou desejos por um número maior de leitores etc. Apenas um despretensioso distrair-se que no decorrer dos meses transformara-se num dos exercícios mais saudáveis e edificantes para a profissão que eu escolhera — a saber, escritor de literatura ficcional.

A jornada começou deveras tímida. Numa altura, só a minha mamã entrava aqui para ler as coisas que eu escrevia. E mesmo assim, com o único propósito — ela mesma confessou-me depois — de saber «se estava tudo bem, se o filhote estava a recuperar-se adequadamente das tormentas pelas quais passara».

Até que, de súbito, notei um fluxo maior de leitores. Não era mais somente a minha mamã, era a Dulce Delgado, a Rejane Leopoldino, o Gabriel Moura, a Miau, a Cristileine Leão, a mãe de Ludo e Vico, a Thaysminy Marques, o Brunno Vittorazze, a Léo Campos, a LPD, o Jorge Sasgarante, a Ana Gimenez, a Irina Marques, a AmagM, o Jorge Santos

E como se a interação virtual não bastasse — e nunca, nunca basta —, duas das pessoas mais singelas e adoráveis que pude conhecer através deste blogue mandaram-me regalos reais na semana passada. Dois seres humanos com histórias parecidas e que muito provavelmente não sabem (ainda) da existência um do outro: a Danielli Cavalcanti e o Emanuel Melo.

A brasileira Dani, que hoje mora em Kolding, Dinamarca, enviara-me os perfumes da Flor de Linz, um livro sobre sair, sobre chegar, sobre migrar, sobre a(s) tentativa(s) de encontrar casa(s) algures. Uma obra que devorei de bom grado ao jardim da minha residência, por vezes deitado numa rede a lembrar-me dos primeiros escritos de W. G. Sebald, que durante toda a vida procurou amenizar angústias e que numa altura chegara a dizer que seria (e realmente o foi) um eterno exilado.

Do Emanuel, que possui um coração gigante — cujos detalhes não caberiam nos propósitos enxutos desta publicação —, recebi Memória, an Anthology of Portuguese Canadian Writers. O conto que ele escrevera encontra-se na página 14 e se chama «Avó Lives Alone», que apenas aparentemente trata de uma velha senhora que levanta às cinco da manhã para assistir às missas portuguesas na televisão. No entanto, como já é da praxe nos textos do Emanuel, as linhas começam de forma sutil e elegante a problematizar os pormenores de uma família que teve de sair do próprio país a viver para o estrangeiro, os trejeitos de uma Avó que sente saudades da terra e que busca refúgios no ecrã da televisão — sem necessariamente encontrá-los. 

As vias biográficas da Dani e do Emanuel mostram-se análogas. Ao ler o texto de ambos foi-me impossível não imaginar uma espécie de diálogo: Dani a escrever para o Emanuel, Emanuel a responder para a Dani. Os dois tiveram de se despedir daquilo a que costumamos chamar de pátria, os dois cruzaram o Oceano Atlântico — ela na direção europeia, ele na direção canadiana. Os dois precisaram de se reinventar e encontraram na literatura uma fonte mais amena, um canal aberto através do qual tentam compreender os mundos em que vivem.

E, finalmente, deixo-vos com esta opção aprazível, que aprendi ao me deparar com as palavras impressas da Danielli Cavalcanti e do Emanuel Melo: apesar dos traumas, apesar das dores, apesar das distâncias, das saudades, dos arrependimentos, dos desafios, apesar de tudo, sempre teremos à nossa disposição uma simples folha em branco para nos convalescer. Pode até não significar a cura total, mas pelo menos ajuda imenso no processo — ameniza-nos. Faz-nos seguir para diante, não importa se para o Norte ou se para o Sul.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

28 opiniões sobre “Todos os papéis do mundo”

  1. É bom que o blog tenha lhe dado a oportunidade de drenar suas emoções como escritor e serviu para um público mais amplo ler seus escritos. Ter pessoas relevantes como referência é a melhor coisa se encontrarmos coisas positivas nelas que nos ajudem a ser melhores. Sua história é boa. Eu gostei de ler.

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  2. Paulo, você tem algo valioso: espírito fraterno. Escreve e lê o outro. Troca. De seu trauma, não nasceu um mundo mesquinho, egoísta, em si mesmo, achando que a dor fosse sua exclusividade. É, Brasília não é somente um antro, um pesadelo. Tem gente boa como você. Abraço forte!

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    1. Léo,

      Obrigado pelas palavras gentis. É realmente muito, muito gratificante manter contato com pessoas que me mostram novos caminhos criativos, novas formas de se lidar com aquele tipo de sentimento que nos inquieta por dentro. Você, sem dúvida, faz parte desses regalos que recebi desde que comecei este despretensioso blogue.

      Mando-lhe os melhores abraços,

      P.

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    1. Cris,

      Gostava que soubesses o tanto que os teus textos influenciaram — e ainda influenciam imenso! — o meu modo de ver a escrita, a vida, as pessoas ao meu redor.

      Tens uma forma muito apurada de lidar com as vicissitudes da existência. Problematizas, mas também buscas soluções; sabes que são batalhas ardilosas (estes incontáveis demônios internos com os quais precisamos de lidar), mas não desistes. Olhas nos olhos das feras, bem no fundo dos olhos das feras, não recuas — fazes poesia.

      Admiro-te.

      Abraços,

      P.

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    1. Dani,

      Não há de quê, minha querida amiga. Apenas tentei refletir um bocadinho a respeito do que senti ao ler Flor de Linz.

      —— E tenho a certeza de que os textos do Emanuel irão lhe agradar imenso.

      Abraços!,

      P.

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  3. Obrigado P,
    Não esperava estar mencionada na lista de seguidores, fico sempre um pouco “sem jeito” quando me referem assim (é aquela altura em que eu por norma me escondo num casulo), mas vou dizer umas palavras, vá…
    Acho, e sempre achei que tens imenso potencial, daí acompanhar a tua escrita, com todas as oscilações (que todos nos passamos, creio, faz parte da vida de cada um). Dedicaste imenso ao que fazes, e vives para o que fazes e isso reflecte nos seus textos, são originais e diferentes.
    Espero, continuar a ler por mais um tempo e que continues no teu rumo criativo, o qual estás de parabéns.
    E é bom acompanhar a evolução toda 🙂

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    1. Querida Irina,

      A verdade é que acompanhaste (e ainda acompanhas) todas as oscilações desta minha montanha-russa cibernética — e também acho que se trata de um passeio natural, humano (se preferires), principalmente quando um se volta para dentro, às mazelas, aos demónios. Os discursos podem até se mostrar contraditórios, por vezes paradoxais, etc., mas é a tentativa que me agrada deveras.

      Vejo-te como uma adorável inspiração — em artes e não só. Alegra-me o facto de podermos navegar nos mares um do outro.

      E que novas criaturas possam surgir destas profundezas.

      Muitos abraços para ti,

      P.

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  4. Apesar de já tanto ter sido dito nos comentários anteriores, apenas quero acrescentar um pensamento surgido no final da leitura do post.
    A verdade… o essencial… a resposta…ou como lhe queiramos chamar, está toda no ultimo parágrafo escrito. Para mim, pelo menos.
    A “folha em branco”, a verdadeira ou como metáfora, é a disponibilidade interior, é a mente aberta, o acreditar, a aceitação do novo ou do que surgir, as possibilidades, o futuro etc, etc, etc.
    Um “tempo em branco” pronto a receber o que surgir e nos toca, aquilo que ainda a vida nos tem para dar depois de tudo o que não nos quis dar ou tirou. É o seguir em frente, olhando para a frente e não para trás, é o viver com a alma e não só com o corpo.
    A vida só tem sentido, quando à nossa frente, seja qual for o tempo que a vida ainda tem para nos oferecer, sempre vemos uma “folha em branco”, cheia de hipóteses e de possibilidades.
    Um abraço cheio de futuro para o nosso escritor!!

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    1. Dulce,

      As hipóteses, as novidades, as terapias, o desafogar, o perder-se e tantas outras possibilidades — são exatamente os motivos que me fazem ter a certeza de que fiz a escolha certa, de que sempre me deparo com tarefas infinitamente surpreendentes.

      É esta a imagem que tenho da folha vazia, à espera das ideias que irão preenchê-la…

      Há o ponto final, sim, mas trata-se apenas de um sinal gráfico, capricho das regras gramaticais. Até virarmos a página, e lá está o espaço em branco, de novo, pronto para outros recomeços.

      Muitos abraços,

      P.

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  5. Republicou isto em Jardim migrante and commented:
    E eu tive a surpresa e a alegria de ser citada num post de P.R. Cuha, um escritor que as andanças litero virtuais me presentearam, quem eu admiro, acompanho os escritos. Li seu premiado, lindo e instigante livro, Paraquedas. Já aguardo o segundo, como criança na manha de aniversário! ❤

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  6. Muito contente de ser mencionada em seu texto, P! Mesmo afastada, eu não deixei de acompanhar o seu blog e o de mais alguns colegas em comum que também foram citados aqui. Acredito que as palavras publicadas no seu blogue podem aproximar continentes, países e estados, diminuindo nossa “distância geográfica”, que entre nós é de poucos precisos 1.013 km até uma certa cafeteria em um shopping de Brasília. (Fonte: Google Maps) hahah.
    Um abraço forte, P. Você tem aqui uma leitora fiel.

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    1. Rejane,

      Que as palavras possam encurtar distâncias geográficas… É bem isto. Pois quem diz que a curvatura do espaço-tempo, que a relatividade do observador, que a ambiguidade da luz — quem diz que essas coisas são tratadas unicamente pelas ciências exatas jamais lera um livro de literatura na vida.

      Os 1.013 km citados por Google Maps de súbito tornam-se meros centímetros, como numa despretensiosa conversa face-à-face em cafeterias atemporais.

      Abraços!,

      P.

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  7. Paulo,

    os teus outros leitores já disseram tudo que havia de ser dito acerca da tua generosidade e do carinho que dás aos que seguem o teu blogue.

    É verdadeiramente impressionante, e talvez milagroso, que, hoje em dia, em que tanto que lemos na internet é negativo e destrutivo para a paz dos nossos espíritos, existes, Paulo, para unir estes teus leitores que, providencialmente, acharam a tua grande luz dentro do vasto universo escuro do cyberspace, luz que nos ilumina e atrai a ti, “like a moth to a flame” (não sei se existe este dizer em português).

    No teu espaço web sinto-me “à vontade” e atrevo-me escrever no meu pobre português apesar de sentir-me mais à vontade no inglês. Com certeza isto é coisa dos imigrantes, como eu, que vivem longe da pátria, por quase uma vida inteira.

    Obrigado, Paulo, pela coragem que tiveste em iniciar o teu blogue para “desafogar” tudo aquilo que querias partilhar com um mundo de leitores desconhecidos, e que agora conheces, que agora fazem parte do teu maravilhoso mundo.

    Um grande abraço daqui onde estou, em Toronto, tão longe, mas que fica perto pela amizade,

    Emanuel

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    1. Querido Emanuel,

      Tens toda a razão quando citas as longitudes encurtadas pela amizade.

      Já te disse em diversas ocasiões: és um presente adorável, um amigo que, apesar das distâncias, sinto como se vivesse para aqui, pertinho; ou como se estivéssemos a pesquisar os melhores alimentos em St. Lawrence Market, ou mesmo a nos divertir ao meio das cores de Kensington.

      (À laia de evitar os clichés, não citarei a CN Tower nesta mensagem.)

      Que tu te sintas à vontade neste electroplace, e que por isto possas também manter contacto com a nossa multifacetada língua portuguesa — é-me já um privilégio notável.

      Gostava verdadeiramente de um dia poder conversar contigo à moda humana — não importa se nesta banda do oceano ou se às bandas mais glaciares do Norte.

      Agradeço-te imenso pelas ilustres visitas,

      P.

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  8. Revejo-me um pouco nas suas palavras, pois o meu blog também começou assim: timido e despercebido. Escrevia e escrevo, não tanto para ultrapassar fases difíceis, mas para ultrapassar uma barreira ainda mais invisivel e, na minha opinião, muito mais difícil de deitar abaixo: a ideia de que escrever não é uma acção que rende dinheiro, a vida de escritor não é uma vida feliz, escrever em vez de estudar ou trabalhar [noutra área mais socialmente aceite] é perda de tempo. Barelas, claro, mas quem me dizia o contrário? Ninguém e no meu blog despercebido, eu lá ia “perdendo tempo” e, ironicamente, ganhava vida.

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    1. Tiro o chapéu diante do seu relato do interior, caríssima Escritora. Como em tantas atividades humanas, os objetivos e as motivações de quem escreve acabam por se mostrar tão variados quanto as estrelas no céu. No meu modo de ver, o importante é que cada animal humano que se mete em literaturas (re)conheça os próprios interesses, os próprios gatilhos. E acrescentaria ainda apenas este pequeno detalhe: escrever é estudar a si mesmo. Não há matéria mais relevante.

      Muitos abraços do

      P.

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