Mãos à celulose: parte II

Repertório

Sejamos sinceros: bloqueio criativo é apenas um eufemismo utilizado por escritores que não querem reconhecer o fracasso temporário, isto é: admitir que não têm nada a dizer. Aquela terrível situação de olhar para a folha em branco, ou para a tela do computador com a barrinha vertical torturante que pisca a cada segundo. Sem nenhum assunto, nenhuma ideia. Acontece que ninguém prepara um bolo sem os produtos necessários. A imagem é bem esta: colocar uma fôrma vazia dentro do forno e esperar que dali saia um bolo saboroso, com cobertura de chocolate e granulados. O mesmo ocorre com a narrativa; ela precisa de ingredientes para se desenvolver e adquiri-los é tarefa do escritor. Infelizmente ainda somos bombardeados por mitos que descrevem grandes figuras literárias a construir romances num par de semanas, sem esforço, como que iluminadas por forças sobrenaturais. Mas a verdade é que os escritores prolíficos demoram para armazenar os próprios arsenais de ideias antes de, como se diz, colocar o bumbum na cadeira e escrever. Essas ideias estão em toda a parte: na infância, na família, nos amigos, nas verdades, nas mentiras, nos livros, nos filmes, na fila do banco, no metropolitano, no autocarro… Os personagens e as cenas do seu romance serão diretamente influenciados por essas ideias. Trocando em miúdos, os personagens também precisam de frequentar a escola, de estudar, de viver, de sair, de sentir, de formar-se. Suponhamos, por exemplo, que você queira escrever um conto sobre a imensidão do Cosmos, porque a astronomia sempre lhe causou enorme fascínio. Você ainda está confuso, não sabe ao certo como irá desenvolver o conto. Chega à conclusão de que, em criança, o protagonista queria ser astronauta, mas crescera numa família difícil, algumas tragédias, a vida o levara para outros sítios, e ser astronauta fora apenas isto: um sonho que não poderia ser concretizado, como tantos sonhos que sonhamos e não dão em nada. Esta é a base do conto, o esboço de um personagem que pode (e deve) desvendar um bocado sobre si, sobre as pessoas que você ama, sobre as pessoas que você despreza, sobre as decepções, sobre resignar-se etc. etc. É o momento de adquirir repertório, conhecimentos, dar verossimilhança, pesquisar com afinco sobre a vida de um astronauta, ler Endurance – um ano no espaço, de Scott Kelly, ler Neil deGrasse Tyson, Michio Kaku, divertir-se com as aulas do professor Brian Cox, com a voz robótica dos documentários sobre Stephen Hawking, ler Carl Sagan. Tais pesquisas vão lhe dar as devidas ideias/ferramentas/conteúdos para construir os personagens do conto, as cenas, as situações desafiadores — o enredo. E como o tema lhe agrada muitíssimo, pode ter a certeza de que serão tarefas prazerosas, engrandecedoras. Certo… agora que você possui folhas e folhas de anotações sobre os mais diversos detalhes cosmológicos, agora que você sabe como é a experiência de um astronauta dentro de uma espaçonave, agora que você sabe a respeito do processo de se tornar um astronauta, das dificuldades, dos dissabores, das glórias, das derrotas, dos riscos, agora que você sabe o que é matéria escura, o que é a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, como funcionam os buracos negros, em suma: agora que você possui os ingredientes do bolo, experimente sentar-se à escrivaninha para começar o conto. Garanto-lhe que a página não permanecerá em branco por muito tempo.

— P. R. Cunha

9 thoughts on “Mãos à celulose: parte II

  1. Isso me lembrou Sex and The City… Carrie Bradshaw sempre lia bastante pra buscar referências para os romances que ela gostaria de escrever.
    Inclusive, faço o mesmo. Não só ler, mas escutar Álbuns renomados… E no final, é como você disse: A página não fica em branco por muito tempo!

    1. Exatamente, poetisa: manter os canais abertos para todos os tipos de manifestações artísticas. Porque as influências vêm mesmo de todos os lados.

      Abraços!,

      P.

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