Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. É autor de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro). Atualmente, dedica-se às peças teatrais e ao manuscrito de «Sinfonia do fracasso».

11 opiniões sobre “Digressões sabáticas sobre: encontros de turma”

  1. Nunca esquecer! ….às vezes, é só aparência. Ainda mais neste tipo de encontro, ui rsrs
    Conheci alguns casos,…e dentro de casa houve violência doméstica, outro está preso e não poderá exercer mais a profissão q lhe deu status, outro enforcou-se….

    Liked by 2 people

  2. “Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã.” Esses tipos de reunião, de fato, são “encontros perturbadores”, tenho calafrios de terror só de pensar — até hoje não entendo o motivo das pessoas insistirem em tentar retomar os fracos laços do passado, ainda mais quando a vida de cada um mudou fortemente.

    O mais engraçado é que, no fim das contas, todos ali estão exibindo uma persona que não existe, sempre há mais por trás de tudo (fracassos, decepções, problemas, sempre tento observar esse lado). No entanto, tenho que concordar que a questão do “sucesso” alheio incomoda. Quer dizer, no meu caso não tanto: simplesmente não vou a encontros assim, sou masoquista, mas nem tanto, haha

    Liked by 2 people

    1. A começar pela definição de sucesso nos dias atuais. Pergunto-me se é sucesso ter muitos dinheiros à conta bancária, automóvel sueco na garagem, um canino da raça bassê abanando o rabo quando se abre a porta de casa, mas sentir-se uma nulidade, vazio, viver-se sempre à beira do colapso emocional porque nenhuma, repito, nenhuma reunião pode ser perdida, nenhum prazo desrespeitado, a roupa sempre impecável, a gravata, o terno sempre alinhado, nenhuma gotinha de suor neste calor tropical, do contrário o Boss, figura cada vez mais distante, amorfa, quase ninguém sabe quem é o Boss, e fazem-no de propósito, não devem saber quem é o Boss, o Boss é onipresente (etc.), do contrário o Boss chatear-se-ia imenso. E corre-se o risco de perder os dinheiros à conta bancária, o automóvel alemão na garagem, o canino bassê fica sem o aperitivo e deixa de abanar o rabinho quando se abre a porta de casa — que fora devidamente hipotecada pelo banco para o caso de ruína financeira…

      Divago.

      Liked by 1 person

  3. El año pasado hubo una reunión de antiguas alumnas, por motivos de salud no pude asistir y después me alegré, no creo que me hubiera agradado dar ese salto al pasado…
    Me imagino esas reuniones como un patio de vecinos que a lo que se dedican es a criticar y curiosear en la vida de los demás.
    Un abrazo.

    Gostar

    1. Reuniones con finalidad voyeur, donde todos se apuntan a los defectos de los demás olvidándose deliberadamente de los propios. Una definición que, creo, agradaría a Ambrose Bierce. ———— La casa, por lo tanto, es mejor refugio.

      ¡Un abrazo, Estrella!,

      P.

      Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s