Carta a um filho que ainda não tenho (para o caso de ele se tornar escritor)

Filho, ontem me disseste que queres ser escritor também. Comoveste-me com tal decisão. Agora, se me permites, gostava de compartilhar contigo alguns pormenores sobre esta fazenda que, sim, por vezes pode se mostrar ardilosa, mas é também o sítio mais agradável e encantador para criares morada. Suponhamos que tu tenhas uma ideia. Tens uma ideia, um esboço, um embrião, organismo unicelular. É tudo ainda muito cru, muito simples. Então tu tens uma ideia e não sabes se esta ideia transformar-se-á em conto, novela, romance. Estás um bocado esperançoso, entusiasmado, crês que a coisa pode caminhar direitinho. Alguns dias tu acreditas que és grande, magnífico, um escritor de primeira linha, candidato ao Nobel, quiçá o melhor escritor que já caminhara neste planeta; em tantos e tantos outros dias tu chegas à conclusão de que não vales um vintém, de que o que estás a escrever na verdade não caminha direitinho, chegas à conclusão de que perderas tempo, de que há livros de mais no mundo etc. Estás sufocado. Compreendo-te. Essa gangorra é absolutamente normal. A tempestade passa. E a melhor maneira de enfrentá-la é continuares escrevendo. Um relacionamento acaba, continua a escrever; foste demitido do emprego, continua a escrever; alguém morreu no meio do caminho, depressão/melancolia, o teu time não vai bem na NFL, a casa do teu amigo foi hipotecada, a Coreia do Norte declarou guerra à Coreia do Sul — não importa, continua a escrever. Não desistas. Muitas pessoas talentosas deixam de publicar grandes obras porque não têm perseverança, continuidade, porque não terminam. O talento não vale nada se o escritor não consegue colocá-lo em prática. Sejas, portanto, meticuloso, persistente, corajoso, cria rotinas, sai, vê, viaja e, for god’s sake!, termina. Se depois dessas batalhas sangrentas, desses dias/meses/anos agridoces, de algumas paranóias, de inquietações diversas, se depois disso ainda continuares com vontade de escrever, com vontade de começar tudo de novo, de passar por cada uma dessas etapas novamente… então, filho, podes ter a certeza: escolheste o ofício certo para a tua vida. Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha

22 thoughts on “Carta a um filho que ainda não tenho (para o caso de ele se tornar escritor)

    1. Una declaración de amor por la escritura y el oficio de escritor, por cierto.

      Y, sí, como aquí hay muchos visitantes que hablan español, trato de escribir de una manera comprensible para ustedes también. Bueno… no es siempre que funciona.

      ¡Muchísimas gracias por tus palabras, Carolina!,

      Abrazos,

      P.

  1. Vc já está coberto de elogios, deve estar quente embaixo deste ededrão. Vou provocar q é o melhor q faço, ainda mais depois de beber um pouco de vinho alentejano: Ou filha! Rs

    Se a vida de escrever não é fácil, fico pensando na vida de ilustrar.

    1. A carta ao filho foi uma tentativa abstrata de atrair os melhores presságios para o lado de cá, Miau. Porque, se menina, nunca mais conseguirei dormir adequadamente. Faço o tipo (super/hiper) protetor, à moda patológica. Mas, vá lá: ou filha.

      E se trocássemos «escritor» por qualquer outra atividade artística o conteúdo serviria igual. Inclusive, com as oportunidades publicitárias, acho até que os ilustradores têm mais condições de sobreviver do que os próprios escritores.

      Como é mesmo que dizem: uma imagem vale mais do que mil palavras…

  2. Muito bom!
    Gostei especialmente da ideia, porque ela tem associada uma perspectiva positiva, de futuro, de acreditar, de luz, de ver para além do passado, etc.
    Estou certa que um dia, ele.. ela.. eles… ou elas…irão ler esta carta. E terão muito orgulho no pai, porque ele tem mesmo alma de escritor!
    (o amor anda mesmo por aí…)

    1. Dulce,

      Confesso que guardei também uma cópia analógica da carta — justamente à guisa de documentação. Gostava que ele/ela/eles/elas lessem o que o papá achava nos 2019. E, sim: cá o amor fez morada; é bom tê-lo por perto, para variar um bocadinho.

      Bom fim-de-semana!,

      P.

    1. Sasgarante!,

      Por onde andaras, muchacho?

      Pois — a boa e velha técnica oriental*: começo, meio e fim.

      –––––––––
      *Nem sei se é lá mesmo uma técnica oriental; achei apenas que daria um quê de credibilidade à frase.

      1. “*Nem sei se é lá mesmo uma técnica oriental; achei apenas que daria um quê de credibilidade à frase.” – huauhahua, ficou sensacional, caro P. R.! 🙂 Estive em retiro do virtual 😀 Mas estou voltando e visitando os amigos 🙂 Abraço, manolo! o/ Serás um pai sensacional. Serão, você e vossa senhora, pais sensacionais! \o/ Depois olhe o livro “Dez maneiras de destruir a imaginação do seu filho”, do autor Anthony Esolen. Há tempos que este livro ronda a minha atenção. Espero lê-lo em breve.

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