Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte I

O tema é perigoso, não lhe posso dizer nada com precisão. Aconselho-o somente trancar a coisa num baú, mantê-la ali dentro por um ano e depois reler. Daí verá com mais clareza. 

Anton Tchékhov


Em meados de maio de 2017, depois de uma noite muito agitada, acordei com aquela estranha sensação de vertigem que às vezes me assalta quando acredito ser observado por alguém escondido atrás da porta. Essa impressão fantasmagórica tenho-na desde pequeno. Ao que parece, reminiscência de caçadores ancestrais, sempre atentos aos perigos da floresta e que precisavam de responder às exigências de uma realidade dominada pela fuga. Característica que, em situações de crise, poderia levar à estabilização dos pensamentos dos meus semelhantes primitivos responsáveis pela vigília noturna da tribo, mas herança genética pouco necessária ao indivíduo contemporâneo que apenas almeja algumas horas de sono sem angústia.

Um amigo que largara os estudos de literatura de língua alemã — justamente na época em que comecei a escrever minhas análises sobre as obras de W. G. Sebald e Robert Walser — para cuidar da quinta de animais que pertencera ao avô Dănuț, nome romeno que sempre me intrigou muitíssimo, disse-me certa vez que essas perturbações poderiam ser reflexos de abandonos na minha infância. Acontece que os meus pais escolheram a medicina e, como se sabe, o médico está sempre fora. Pobre criatura que se apercebe desamparada, disse esse amigo, e passa então a criar substitutos espectrais para suprir a ausência daqueles que, supõem-se, deveriam estar por ali cuidando do produto de suas obras, mas vestem o jaleco branco e partem algures para tratar de outras gentes. Esses «doppelgängers» oníricos comportar-se-iam tal e qual o papá e a mamã, meu amigo explicou-me enquanto limpava uma mancha de terra no braço esquerdo, mas nessas aparições estariam em trajes civis, como que idealizados pela cabeça da criança, de acordo com aquilo que ela gostaria que fosse, mas nunca é. Acrescentara ainda, o meu amigo, à guisa de alerta, que sentir-se perseguido por sombras escondidas atrás da porta geralmente é sinal de um mau presságio. 

Foi, portanto, com essa sensação vertiginosa que despertei depois da supracitada noite de maio e dei comigo que nos quase oito anos de morte do meu pai nunca voltei ao cemitério a prestar, como se diz, minhas homenagens. Oito anos e era como se eu ainda o esperasse chegar de longe, de algum plantão na clínica, ele ficaria um pouco, talvez jantasse, e então sairia para outra jornada misteriosa a respeito da qual jamais daria grandes detalhes. Quando meu pai se afastava, telefonava a cada três horas para saber «como estavam as coisas», mas as ligações raramente duravam mais do que um minuto. De aí, quando ele voltava para casa, exausto, parecia uma falésia insuperável. A previsibilidade desse pêndulo fez com que eu me acostumasse com as distâncias (ausências) e aprendesse a lidar com elas. Compreendia que meu pai se esforçava para estar presente, ser família, e compreendia também que ele nunca daria conta dessas tarefas. 

Ainda de pijamas, sento-me à mesa da cozinha e fecho os olhos enquanto tomo o pequeno-almoço. Negrume. Lá está meu pai deitado no caixão, usa um fato muito parecido com o que vestiu no próprio casamento, não se move, e a mim isso não importa, porque papai volta, depois de alguns meses, mas volta. Pergunto se afinal ele não terá escutado tudo o que se falou no velório, as mentiras, as condolências vazias, os votos daqueles que o abandonaram. Pergunto se papai só parece, mas não está morto. Nós nos habituamos a determinadas rotinas, determinadas condições, certezas que nunca são certezas, e quando tudo isso se rompe demoramos a nos adaptar aos novos termos, às perdas — sentimos ainda incômodos no membro-fantasma, como um soldado mutilado no campo de batalha.

Saí, então, do meu apartamento em meados de maio do ano passado por volta das 9h da manhã carregado de uma branda melancolia e com vontade de conversar com o túmulo do meu pai. Soprava um vento forte, o céu coberto de nuvens espessas, mas quando cheguei ao cemitério o tempo estava formidável.

No extremo sul do segmentado projeto arquitetônico de Brasília, como se escondido de propósito, está o cemitério Campo da Esperança. Meu pai foi enterrado ali. Estacionei meu automóvel enquanto alimentava ingênua expectativa de que teria uns momentos completamente solitários com a memória paterna, esquecendo-me de que as pessoas morrem todos os dias, ao passo que Campo da Esperança não está vazio, mas repleto de transeuntes com vestuários escuros, familiares e amigos que choram a morte de alguém que «se foi cedo demais», outros senhores errantes que perambulam em busca da, e aqui conjecturo, sepultura da mulher amada. 

Caminho até à recepção do cemitério e pergunto pelo endereço do jazigo do meu pai. A moça ao computador, que com toda a certeza notara minha inexperiência com esse tipo de arranjo, pediu-me data de falecimento e nome completo do falecido. Ela então pegou um pedaço de papel com o mapa do cemitério e circulou com caneta esferográfica o local exato em que papai fora enterrado. Depois, por curiosidade, eu quis saber também do lote do meu avô materno, e disse logo dia/mês/ano, nome completo dele, antecipando-me, portanto, aos questionamentos ensaiados da recepcionista, que já entreabria a boca para repetir as mesmas perguntas da praxe. Acreditei que com essa atitude, nada ousada, hoje compreendo com clareza, acreditei que pudesse fazer melhor figura, que assim eu me passasse por sujeito que entende de cemitérios, que sabe do que fala quando se trata de visitar os mortos, e a recepcionista me enxergaria com outros olhos, de repente até se repreenderia por ter me julgado um novato, um desconhecedor mórbido. A recepcionista diria para consigo: finalmente alguém que entende de cemitérios. Mas, posso falar isto sem culpa, as coisas não ocorrem como imaginamos. Ela manteve a mesma fisionomia desinteressada de antes e, como se fosse uma vendedora de supermercado que explica ao cliente a falta de determinado produto, disse que: seu pai morreu em 2010, então temos os dados dele no nosso sistema, mas seu avô morreu em 2002, já dele não temos nada, e teria, ela continuou, teria que dar uma olhadinha nos arquivos de papel que estão guardados naquela sala, ela então apontou para a sala. Como fiquei parado a esperar que ela se levantasse e fizesse o próprio trabalho — ou seja, abrir a sala, procurar o endereço do túmulo do meu avô, entregar-me o endereço — ela acrescentara ainda que a sala estava trancada há muito e ninguém sabia ao certo onde estava a chave.

Procura da mulher amada

A verdade é que entregamos a memória de toda a gente aos computadores; agora também os mortos devem desaparecer se não se adaptarem aos sistemas binários. No caso de pane geral na rede algorítmica, quem se recordará de quem?, tais abordagens são de tremer. Os túmulos que ocupam, ou melhor, que abarrotam a superfície dos cemitérios de certa forma estão ali para um derradeiro lembrete aos ouvidos dos vivos antes da computadorização de tudo, parecem dizer que a última morte é aquela que acompanha o esquecimento do nome de quem já morreu, independentemente da natureza desse esquecimento, se analógico ou digital. Talvez seja por isso que muitos se mostrem tão inquietos quando se deparam com lápides abandonadas, a erva daninha passa a decretar que essas nomenclaturas de pedra já não servem mais, não têm propósito, e a pessoa sente o gosto amargo da completa finitude, quando nem mesmo o agrupamento de letras que outrora lhe chamava num som tão familiar é capaz de resgatá-la do anonimato irreversível. 

Quero dizer que a despeito das esperanças em contrário e das tentativas de digitalizar a morte todos caem na vala desse esquecimento, uns despencam depressa, outros se demoram um pouquinho mais porque deixaram marcas significativas na topografia da vida. O vazio chega, cedo ou tarde; nossa sepultura se deteriora, os dados não foram devidamente colocados nos computadores, já não trazem flores, já não choram mais em cima das nossas rochas. E por mera questão de conforto evita-se pensar nessas perversidades. Até que numa manhã de outono o sujeito tenta se lembrar do nome de um amigo que morrera há anos e não consegue, o amigo se tornara uma pequena mancha na memória, mancha que aos poucos se dilui, vira um borrão lacônico e finalmente se extingue — os sítios web nada podem contra isso. O sujeito tem assim certeza de que também ele, depois de morrer, será apenas uma mancha desfigurada na lembrança de outra pessoa, esvanecerá ao ponto de não ser mais reconhecível, como ocorre com as películas de filme antigo que apodrecem no porão de algum estúdio abandonado.

Campo da Esperança

Procuramos, assim, adiar o extermínio inevitável dos que já se foram, criamos tumbas na internet, nos iludimos, não queremos admitir que este projeto também fracassará, apenas seguimos em frente, sem rumo definido, registramos, guardamos, apresentamos, representamos, documentamos, até que nós também morremos e é como se nada tivesse acontecido: este é o ponto que estou tentando demonstrar.

— P. R. Cunha

21 thoughts on “Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte I

  1. Só somos lembrados enquanto os que nos conheceram se mantiverem vivos…
    Quando o meu pai faleceu, quase 11 meses, não foi só a sua ausência que me doeu (e ainda dói), pela primeira vez senti abandono, senti-me desprotegida… Sempre fui a sua menina querida e apesar de ter sido sempre muito independente, independência essa que por vezes o incomodava, no dia em que ele morreu senti-me entregue a mim própria e foi assustador… A ideia de que se necessitasse dele ele não estaria lá foi para mim o mais difícil de gerir. .. Desculpa este comentário em forma de desabafo, mas ler-te tem esse efeito… Obrigada 😊

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    1. AmagM,

      Primeiramente, sinto muitíssimo pela perda do teu pai. Descreveste um quadro cujos detalhes compreendo, porque passei por processo parecido. Meu pai era um tipo distante, mas era o meu porto seguro. Foi como se aquela morte tivesse sido um pouco a minha também. Ao mesmo tempo, os anos ensinaram-me a lidar com ausências, a dele e não só. Depois que papá morreu, a vida tornou-se outra coisa.

      Gosto de pensar que quando escrevo estou a mantê-lo por perto de alguma maneira — mesmo que sejam linhas despretensiosas, íntimas, impublicáveis.

      E, por favor, não precisas pedir desculpa; os teus comentários são sempre enriquecedores e pertinentes.

      P.

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  2. Queremos viver, queremos adiantar a hipótse que o dia não chegará, aquele dia terrível do “Dies Irae”, mas ele sempre vem, e a única coisa que talvez podemos fazer, com esperançosa ilusão, é pensar que se “…registramos, guardamos, apresentamos, representamos, documentamos”, permaneceremos na história da civilização ou pelo menos no coração daqueles que nos amam.

    E depois, quando aqueles que nos amavam já não vivem mais, quem se vai lembrar de nos amar? É então que chega o momento em que depois de morrermos, “é como se nada tivesse acontecido.”

    Lição dura, meu Paulo, mas espero que, quando chegar a tua vez, não sejas esquecido por muitos séculos! Sempre vale a pena deixarmos alguma coisa nossa para o futuro-sem-nós, e nada é tão seguro neste mundo de insegurança, como a palavra escrita.

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    1. Perfeito epílogo para o Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo, querido Emanuel.

      Numa altura, perguntaram ao Nabokov o que ele achava que iria acontecer depois da morte. Ele respondera: o mesmo que acontecia nos bilhões de anos antes de eu ter nascido.

      É uma jornada rumo ao esquecimento — ou pelo menos às idealizações. Morremos e perdemos a voz, as justificativas, as possibilidades de nos retratarmos. Ficamos à mercê das análises subjetivas «dos outros».

      Mas de aí recordo-me dessas palavras do Nabokov e não perco o sono. Preocupar-me com o quê? Com o vazio infinito?

      Bom… Não queria soar (tão) niilista. Acho que é a influência do sr. Nietzsche.

      Abraços com optimismo para ti, meu amigo,

      P.

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  3. Fazer, ser, dar, escutar, amar, partilhar em vida. O que fica de nós é isso, o resto é secundário.
    Aproveitemos os momentos e o bom sol enquanto vivos…e depois, o calorzinho final de uma cremação purifica o corpo….e alivia os arquivos e/ou computadores!
    A alma ou espírito talvez continuem a passear por aí…
    Parabéns pelo texto e partilha de sentires!

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    1. Dulce,

      Há pouco assisti a uma entrevista com o professor Brian Cox em que ele explicava toda a improbabilidade de estarmos vivos — que o arranjo genético, arranjo de átomos, arranjos de todas as partículas que formam o que nós somos são acontecimentos verdadeiramente absurdos. Tão absurdos que Brian Cox confessara sentir um bocadinho de desprezo por aqueles que se entediavam com a vida. Se ao menos pensássemos mais sobre a nossa transitoriedade, ele disse, sobre a nossa raridade, enxergaríamos este mero acaso com olhos menos irascíveis.

      De forma que, sim, aproveitemos os momentos, o bom sol, a boa chuva, as flores, as dores, as lágrimas, os sorrisos — enquanto vivos.

      Abraços,

      P.

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  4. Seu texto emociona, faz refletir e compreender que as formas de se morrer ainda que sejam distintas e que cada um sente a perda de uma forma específica, as memórias é que tornam os que morreram eternos. E se me permite…..compartilhar conhecimentos é uma forma de se eternizar….algum filósofo famoso disse isso. Só não me recordo se Aristóteles ou Platão. Abraço querido P. 😘😘😘😘😘

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    1. LPD,

      Estava a assistir à animação Next Gen com a Jéssica e o nosso bolotinha no sábado de carnaval e numa altura o robô 7723 diz para a Mai:

      — A memória é tudo o que tens, é aquilo que te torna o que és; não deixes que memórias ruins impeçam-te de criares novas memórias boas.

      Eu daria uns Óscares para esse Next Gen.

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