Arquiteto literário: modos de usar

Vê o caso dos contos. Como nasce uma narrativa breve, curta? (Penso nos contos porque embriões de [quase] todas as formas literárias [como diziam os antigos: o romance é lá um conto cujo final fora constantemente adiado pelo autor].) Então, repito, como nasce um conto? Estás a caminhar num país estrangeiro e escutas qualquer coisa exótica. De aí vêm cenas inusitadas à tua cabeça; trechos, recortes. Se colocas esses fragmentos numa folha de papel terás quem sabe uma promissora antologia de contos. Obviamente, quererás adicionar um ou outro adereço com viés fantasioso — o «gostava que tivesse sido assim». És também um arquiteto quando escreves o conto, percebes? Os parágrafos são as paredes da tua morada. Ainda dentro da analogia arquitetônica: o teu estilo tornar-se-á o paisagismo, a decoração interior. Há casas mais bonitas, outras mais feias. O leitor olha e reconhece. Isto é certinho.

— P. R. Cunha

17 thoughts on “Arquiteto literário: modos de usar

    1. De certeza que estamos a tirar cenas do quotidiano (nosso ou de outrem) quando misturamos personagens à cabeça. E criamos padrões, linearidade. Tenta-se eliminar os supérfluos — ou escreve-se um Infinite Jest, ou um Ulysses, ou O homem sem qualidades com os supérfluos e tudo.

      De toda a forma, são ações humanas que ocorrem num determinado período de tempo — livros; vida.

      Desejo-lhe um ótimo fim-de-semana!,

      P.

    1. Miau,

      Sim, o editor seria o engenheiro: acréscimo excelente.

      Mas não podemos nos esquecer que há também engenheiros distraídos — desastrados — que por vezes não percebem nada de bulldozer e destroem, geram grande algazarra à obra.

      &tc.

      1. Ah..vou puxar a farinha p o meu lado. Rsrs Os arquitetos tb! Criam cada “maluquice” !(vanguardices, existe essa palavra?). E os engenheiros que se virem p executar. Rsrsrs E tb os serralheiros com esforço acrescentado, e os pedreiros e mestre de obras, e os canalizadores,…. Quem menos deve sofrer são os eletricistas com seus elementos flexíveis. Rsrsrs

        1. Hahahaha!

          Ganhei meu dia.

          Adoro essas intrigas à moda construção civil. Brasília é um ótimo sítio para tal desporto. Cada prédio «vanguardista» que o estômago embrulha — apetece ir à casa de banho mais próxima. E pode-se colocar o escritor com qualquer fantasia neste samba torto. Eis a beleza do enredo.

          Abraços elétricos,

          P.

    1. Bia,

      Creio que cada projeto requer determinados estilos/tipos de abordagem — que materiais utilizar, quanto espaço interno, quantos metros às traseiras, que partes voltadas ao poente, que partes ao nascente, piscina, churrasqueira etc.

      São desafios destintos (conto, cabana; romance, mansão), mas que precisam do devido esforço para se transformarem em edificações habitáveis.

      John Cheever costumava dizer que criar um conto não é tarefa difícil. O verdadeiro desafio, no entanto, é escrever um conto bom, atraente, estimulante, que manterá o leitor — sempre com coisas mais importantes a fazer (a concorrência [vide entretenimentos diversos] hoje em dia mostra-se ainda pior) — até ao ponto final.

      Muitos abraços para si,

      P.

    1. Vilém,

      Essa pequena oração citada por si é microcosmos da vida, cujo final também procuramos adiar; com muito custo.

      E espero, sinceramente, que não faça inimizades com o sono.

      Toda a gente precisa de descansar um bocadinho.

      Abraços,

      P.

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