Um gosto culto em literatura

Suponhamos que João, autodidacta, tem aquilo a que se chama «um gosto culto em literatura». João admira muitíssimo determinado livro — à laia de exemplo, vamos dizer que o livro é Relatório do interior, do Paul Auster. Quando começa a perceber que tantos outros também admiram um bocado o livro do Paul Auster, João perde o interesse. (Ou quando milhares de pessoas têm gosto parecido, e o sujeito sente-se menos único, menos especial, ele não é mais o transgressor [outsider] que gosta dos livros do Paul Auster, às escondias; ele agora faz parte de um grupo, clã, mar de gente. Tudo é copiado/copiável. O livro chega ao destinatário, destinatário não pensa [reflecte] a respeito do trabalho do autor do livro. Uma abordagem plausível seria: estou a ler a obra de certo autor, de um ser humano que dedicara tempo, anos, esforços para escrevê-la, talvez a empreitada tenha lhe custado uma perna, um casamento [ver também: amigos & familiares negligenciados porque fazendas literárias], valorizo tamanha coragem. Mas não pensa. Lê. Mastiga. Cospe. Até que o conjunto livro-autor é finalmente esquecido numa prateleira ao canto da sala de jantar e a vida meio que continua.)*

— P. R. Cunha


*Isto é claramente uma generalização arbitrária; se és lá um bom leitor (leitor educado, leitor atencioso, leitor-escritor), não te sintas atingido por palavras tão levianas.

11 thoughts on “Um gosto culto em literatura

    1. Haha!

      De forma alguma, Marcelo.

      Escrevi a notinha na segunda-feira; porque um amigo estava a queixar-se de que na juventude gostava imenso do The Cure, até descobrir que uma colega de turma — menina odiosa (palavras dele) — também adorava os Cure, e toda a vez em que escutava o álbum Disintegration ele não conseguia parar de pensar na «menina odiosa», de forma que, aos poucos, perdera completamente o interesse pela banda.

      (…)

      Aliás, gostava de compartilhar esta frase consigo: ler por obrigação ou ler livros dos quais não gostamos são duas práticas piores do que se viver sob um regime opressor. Quem a escreveu foi o Hitchens.

      No fim de contas, há tantas obras que podem nos interessar que perder tempo com alguma chatice (por mais que seja uma chatice canonizada) é qualquer coisa inadmissível.

      Abraços!,

      P.

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    1. A ver como trata-se de uma epidemia cíclica — apesar de eu cá fazer a famosa mea-culpa, visto que tenho um bom bocado de João no meu DNA.

      De aí eu evitar ao máximo falar sobre os escritores dos quais realmente gosto. Deixo-os como que mumificados.

      É terrível…

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  1. Caaaaara!

    Adoro teus textos críticos e pontuais (que vão direto “ao ponto”, no caso) sobre processos literários, cadinho de mercado e recepção do leitor. Segue tacando ficha!

    Esta tua publicação – não sei por que cargas d’água – me lembrou de um filme que vi estes dias – “Juliet, Naked” (Juliet, Nua e Crua, 2018) – com uma atuação incrivelmente bacana do Ethan Hawke (e Rose Byrne). Comédia romântica baseada na obra de Nick Hornby.

    Um casal – ele (Duncan), americano; ela (Annie), inglesa – estão casados há 15 anos. Vivem num lugar remoto, na PQP, na Inglaterra. O cara é um fã obsessivo de um roqueiro norte-americano chamado Tucker Crowe (que sumiu do mapa depois de fazer algum sucesso).

    Duncan (Cris O’Dowd) segue cultivando a obra dele, exaustivamente, com um blog, com fóruns de fãs, criando mil teorias sobre a vida e a trajetória do artista etc.

    Só que ela – Annie (Byrne) – está de saco cheio disto. Obviamente. E da vida monótona e chata pra caramba que leva ali.

    Daí, surge uma gravação de demo acústica do principal álbum de sucesso do tal Tucker Crowe (Hawke). Duncan pira! Acha uma obra-prima. Annie acha uma merda. E posta uma resenha criticando o trabalho no fórum no próprio fórum do marido. O casal briga. Só que…

    O próprio Tucker Crowe concorda com a resenha e entra em contato com Annie. E a casa cai para o fã: Duncan.

    O resto tem que assistir ao filme. Mas vale muito a pena para ver em casal ou em grupo de amigos. Um entretenimento leve, pop e envolvente.

    Ou seja: enquanto o artista é um “loser” ou uma imagem estereotipada, um “semideus”, algo que é “só pra si”, está ok. Mas quando o artista é mero mortal e discorda de ti, o bicho pega. Perde o encanto.

    Baitabraço, Rodrigo dMart.

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    1. Caro Rodrigo,

      Antes, gostava de dedicar a ti o próximo texto deste blogue. Pode ser?

      Nunca assisti ao Juliet, Naked — apesar do apreço que tenho pelos livros do Hornby (Febre de bola e Alta fidelidade, especialmente). Vou procurar o filme algures e depois te conto o que achei.

      E, sim… Penso que o artista que fala demais sobre si prejudica certa necessidade que alguns humanos têm de (re)modelar a imagem que lhes convém. Uma música, por exemplo, gera cenas da cabeça de quem a escuta. Se assistimos ao videoclipe da canção, invariavelmente o conteúdo narrativo escolhido pelo diretor (e não por nós) aparecerá à cabeça quando voltarmos a ouvir o tema etc.

      Um amigo meu ri imenso quando conversamos a respeito dessas coisas; ele diz que no fim de contas nada faz sentido, todos vamos morrer. Um niilista, percebes?

      Abraços,

      P.

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    1. Algunos lectores tienen trastorno obsesivo compulsivo. Podrían leer en paz, pero les gusta crear confusión también. Los libros son democráticos, no escogen los locos que los leerán.

      Un mensaje confuso, para decir que estoy de acuerdo contigo — plenamente.

      ¡Abrazos!,

      P.

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