Dois blocos com pensamentos concretos — Brasília

Quando Niemeyer foi convidado por Juscelino Kubitschek para desenhar os edifícios de Brasília, o arquiteto já tinha mais de meio século de planeta Terra. Deram-lhe oportunidade para construir uma nova morada para si e para milhares de brasileiros; um refúgio livre, cheio de curvas, onde o modernista poderia aproveitar os, como se diz, anos de glória. Porém, depois do exílio durante os 1960, Niemeyer jamais olharia para as traseiras brasilienses com a mesma ternura incondicional. Preferiu a França, as praias do Rio de Janeiro, o calor das belas raparigas cariocas. Vivera até aos 104 anos, a dizer adeus aos amigos, a sentir aquele vazio amargo de quem foi traído pelo filho transtornado.

Pistas e pontes a cair, patrimônio cultural da humanidade, estádio e aeroporto que custaram bilhões aos cofres públicos, rodovias esburacadas à moda superfície lunar, prédios sucateados, jardins artificiais, bibliotecas inacabadas, estantes sem livros, torre de televisão a rachar, funcionários públicos que se jogam do Congresso Nacional, cidade-automóvel que não suporta automóveis, novos (e velhos) militares a dar tiros para o alto, os ciclistas atropelados, as quadras fantasmagóricas, a W3, a L4, a L2, o calor, o barro, a terra vermelha — Brasília.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

15 opiniões sobre “Dois blocos com pensamentos concretos — Brasília”

  1. Mais um excelente texto, cheio de energia e tensão.
    De Brasília recordo dois dos maiores arrepios da minha vida. O primeiro aconteceu quando vi o Palácio do Planalto: fiquei emocionado pela delicadeza da solução, quase mais bela que a mais bela das mais belas moças cariocas (para minha infelicidade nunca conheci nenhuma). O segundo aconteceu no interior do Palácio Itamaraty: o batimento cardíaco acelerou que nem um doido com aquelas escadas impossíveis, onde o betão (o “concreto” dos nossos irmãos) pareceu, por momentos, transformar-se num material sem matéria.
    Penso para mim que só mesmo mentes sonhadoras, ou muito loucas, mas gloriosamente muito loucas, podem ter feito uma coisa tão emocionante. Uma arquitectura só comparável ao inumano do Panteão em Roma ou ao sublime das Montanhas Rochosas no Canadá. Enfim, obras de Deuses de cuja degustação não devemos abusar.

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  2. Meu caro Cunha, só uma nota adicional:
    Esta é a visão insensata de um turista, arquitecto, que passou uma semana em Brasília com o propósito egoísta de se maravilhar com a beleza das coisas belas, contra todos os prognósticos, relatos e comentários negativos da literatura e dos meus professores pós-modernos dos tempos de Faculdade que me falava de Brasília como um dos maiores desastres da História da humanidade.
    Um taxista Brasileiro que me transportou disse-me: “Brasília é bom de mais” (lêr “Brázília éé bôômmm djímáizzz”, com um sorriso na cara).

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    1. Luis,

      São comentários verdadeiramente pertinentes, obrigadíssimo.

      Creio que o olhar de um arquitecto consegue sempre perceber melhor essas minúcias a respeito das quais você tão bem relatou. Os palácios (e toda a parte do chamado Eixo Monumental) são de facto impressionantes. Por vezes por lá passo e fico sem fôlego. Mas tal e qual ocorria ao Château de Versailles durante o Antigo Regime — a Corte francesa a viver um luxo exorbitante, enquanto a plebe algures não podia esperar sorte parecida —, Brasília também esconde um lado sombrio, principalmente quando falamos de pontos estruturais (edifícios sucateados à espera de reformas que nunca chegam, uma cidade feita para automóveis [nosso metropolitano é uma piada], áreas que bem poderiam ser campos esverdeados, mas preferem «a robustez do cimento» etc. etc.). É uma cidade lindíssima, uma pérola que precisa de ser preservada antes que se torne apenas mais uma experiência utópica fracassada do socialismo/comunismo do século XX.

      Abraços para si,

      P.

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  3. Pontos negativos. E ponto, se define uma cidade.

    O toddy não se dissolve totalmente. É isso que o torna único. São as bolinhas de chocolate no fundo do copo, que a gente o vira pra não deixar nem um restinho.

    Brasília é como o toddy, perfeita com todas as suas imperfeições.

    Mais linda ainda pra quem vive nela.

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    1. A comparação com o Toddy foi qualquer coisa de impagável — concordo plenamente. Todas as cidades têm corpo de fundo, mesmo aquelas que são arduamente planejadas para não ter corpo de fundo.

      E que as bolinhas de chocolate em Brasília perdurem.

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