Só mais um bocadinho a respeito dos escritores que não escrevem

Este é o Ambrósio. Ele é um escritor que não escreve. O Ambrósio gosta de levantar cedo, tomar banho, preparar o pequeno-almoço, levar o café até à escrivaninha, coloca o jazz para tocar, olha pela janela, observa os transeuntes que caminham aleatoriamente, os autocarros que param ao semáforo, os motociclistas que serpenteiam os outros automóveis, sente o cheiro de pão com manteiga que vem do apartamento do quinto andar, escuta o murmúrio da estação de comboios, sente saudades de alguém que foi morrer algures. O Ambrósio conta para toda a gente, com ares de segredo, que está trabalhando num romance muito complexo, algo que de certeza vai mudar a história da literatura, ele diz, romance épico, grandioso, ele diz. Mas a verdade é que o Ambrósio não escreveu uma linha sequer desse romance. Mesmo assim, vai esperar ser tratado como se tivesse já escrito um sem-número de páginas com frases & parágrafos que deixariam o David Foster Wallace incrédulo diante de tanta genialidade. O Ambrósio lê bastante, faz muitos planos, gráficos, projetos, estipula prazos — mas não escreve. Talvez porque o cérebro do Ambrósio esteja lotado, cheio de ideias dos outros… Na semana passada, por exemplo, ele comprou um Moleskine edição limitada, capa luxuosa (impermeável), folhas cor de creme pautadas com tinta especial desenvolvida por cientistas alemães. O Moleskine custou 300 dinheiros e o Ambrósio nem cogita a possibilidade de danificar esta preciosidade com rabiscos e rascunhos. Afinal, o Ambrósio não é louco. Ambrósio não escreve.

— P. R. Cunha

25 thoughts on “Só mais um bocadinho a respeito dos escritores que não escrevem

  1. Muito bom. Lembrei-me da personagem Joseph Grand, na Peste de Camus, que andava há anos a escrever um romance. Um romance que faria com que o editor, ao lê-lo, se levantasse e tirasse o chapéu (ou qualquer coisa deste género). Mas Grand, por ser tão perfeccionista, ou incompetente, durante todos esses anos tinha estado obsessivamente ocupado a aperfeiçoar o primeiro parágrafo (o único que estava rascunhado).

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    1. Excelente lembrança, Luis. Há o Joseph Grand, o Bartleby, o Joe Gould…, os que começam e depois desistem — penso no Salinger, Juan Rulfo (e tantos outros mais [gentes comuns também]).

      O mundo, entretanto, continua a girar; o universo, a expandir.

      Abraços,

      P.

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  2. Quem escreve é como quem compõe letras de músicas. As letras e os textos já existem em si, de forma aleatória, mas existem. Basta uma palavra ou uma pequena citação que a coisa flui, aparece, e em boa parte transcende a ideia inicial. Não há escritor nem letrista sem ideias e rascunhos adormecidos. Abraço. Evaldo

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    1. De aí muitas vezes eu não acreditar (tanto) em bloqueios criativos, Evaldo. Há sempre um qualquer gatilho à espera: uma notinha esquecida dentro da gaveta, outro aforismo que, porque breve, instiga incontáveis possibilidades… Difícil não lembrar de Lavoisier, do «nada se cria, nada se perde, tudo se transforma». — Quem escreve também trabalha com essas transformações.

      Até à próxima,

      P.

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