Caderno de viagem: os fantasmas fugiram de Sintra

Estou no Holiday Inn Lisbon (Continental) a anotar em um papel de carta do hotel os lugares aos quais pretendo ir nos próximos dias e escrevo ao lado de Sintra a palavra INDISPENSÁVEL, caixa alta. Uma brochura mostra o Castelo dos Mouros num dos cumes da serra que abraça a região e fico a pensar nas noites de insônia da minha infância, quando remexia-me sob as cobertas por causa da leitura prematura de Drácula, do Bram Stoker. Trata-se de um castelo imponente ao estilo Game of Thrones e se esperássemos o bastante quem sabe não conseguiríamos observar a sair pelos portões da fortaleza um dândi audacioso e melífluo com golas altas, asas de morcego, dentes avantajados, sobrevoando em meio à neblina com objetivos nefastos.

Então disseram-me que para conhecer melhor Sintra é conversar (e lá ir) com quem melhor conhece Sintra. Tomei meu pequeno-almoço e às oito da manhã encontrei-me com o sr. Jorge, que prometera levar-me ao fantasmagórico distrito de Lisboa.

Coisas estranhas costumam acontecer no alto da serra, disse-me o sr. Jorge enquanto abria a porta do Renault Espace. 

São os fantasmas, ele acrescentara.

Do Holiday Inn até Sintra são 26.4 km — aproximadamente meia hora de viagem com aquilo a que o Google Maps chama de «the usual traffic». Sr. Jorge fez o trajeto em menos de vinte minutos. Não vás fazer xixi nas calças quando lá chegarmos, ele brincou com aquele ar sério e compenetrado que nossos tios bonachões costumam ter enquanto fazem troça.

À medida que o Renault aproximava-se de Sintra o tempo começara a mudar imenso. Em Lisboa o céu era daquele azul clarinho ao qual podemos assistir em Il Decameron, do Pier Paolo Pasolini com a banda sonora do Morricone ao fundo. Às portas da vila, no entanto… nuvens pesadas, neblina, geada. Sintra era outra coisa.

Sintra tem um microclima muito específico, imprevisível, dissera o sr. Jorge.

Se estou num país estrangeiro costumo fazer constantemente um exercício de autocontrole para não me decepcionar. Adoto a postura mais neutra possível: se por um acaso falam que determinado sítio é magnífico, fico já com a pulga atrás da orelha, como se diz, e preparo-me para visitar um sítio legalzinho. Não obstante, se explicam que determinada cidade é terrível, que ali não há nada, vou até lá com o coração aberto, pronto para ser surpreendido positivamente.

Noutros termos, sou uma embarcação de expectativas que vai para-lá-e-para-cá ao sabor dos comentários nativos, a aguardar o juízo final, isto é: pisar no sítio eu mesmo, tirar as minhas próprias conclusões, etcétera.

À moda Lisboa, Sintra — cujo brasão com lua crescente e estrela revela logo as raízes árabes — também possui prédios coloridos a contrastar com telhados cor de laranja, ruas simpáticas com um leve cheiro a açúcar queimado que dão a um pequeno nenhures. Geográfica e arquitetonicamente é sem dúvida um sítio muito promissor àqueles que pretendem vagar de maneira despretensiosa durante o resto dos tempos depois de, como diria Eugénio de Andrade, bater as botas.

No entanto, quando se lá chega sente-se alguma pitada de desilusão. Sintra é a clara evidência do turismo moderno, do texto publicitário construído para atrair gentes de toda a parte, das fotografias livres do excesso humano, livres do barulho das canções techno-pop, da balbúrdia dos telemóveis, dos gritos (em espanhol, italiano, inglês, mandarim, russo e contando) dos transeuntes desesperados à procura da casa de banho.

Parecia-me que Sintra não estava a sair-se muito bem com as almas penadas. Comentei com o sr. Jorge que conseguia imaginar um passado fantasmagórico à vila, mas que do jeito que as coisas estavam agora (sete de dezembro de dois mil e dezoito), não podia sequer considerar um brevíssimo rendez-vous sobrenatural. Os fantasmas, sabemos, não gostam de multidões com câmeras a fazer cliques a cada dois passinhos. Os fantasmas preferem o vazio, pensei, são seres minimalistas.

Se havia mesmo uma população fantasmagórica aqui, insisti eu ao sr. Jorge, receio que há tempos já tenha corrido algures, com muito medo dos animais humanos.

Agora estou sentado à mesa da padaria Piriquita deliciando-me com um travesseiro de Sintra — iguaria a respeito da qual pretendo escrever noutra ocasião. Atrás de mim, um miúdo italiano chora à mamã porque o irmãozinho pegara-lhe a bola com a silhueta do Cristiano Ronaldo estampada; à direita, uma espanhola arrisca-se no portuñol a pedir água fresca com gás; à esquerda, uma croata mostra-se completamente perdida. Chove a cântaros. Um altifalante estridente toca canções natalinas interpretadas por Bing Crosby, Dean Martin, Fred Astaire.

E a impressão é que cheguei à vila de Sintra tarde demais.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

22 opiniões sobre “Caderno de viagem: os fantasmas fugiram de Sintra”

  1. Sem dúvida, a presença dos turistas estragam muito da boa fama q um lugar tem. Eu tento, mentalmente, retirá-los do lugar p apreciar o lugar.
    Talvez a época não seja das melhores p visitá-la. No entanto, penso q vale uma visita, mesmo assim.
    Quanto ao brasão da cidade… É melhor ver a bandeira de Évora.

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    1. Miau,

      É preciso mesmo de um bocado de concentração mental para abstrair centenas & centenas de curiosos — cada um a falar mais alto, cada um a erguer os próprios telemóveis, cada um a escutar a própria banda sonora (à moda DJ do Mundo).

      Um taxista lisboeta defendera a hipótese de que Portugal era, de certa forma, um país marginal, longe da balbúrdia centro-europeia; mas que agora, com essa ladainha de «melhor destino de todos», tornara-se uma nação ordinária como tantas outras. Fala-se até em terrorismo por lá, coisa que (segundo o próprio taxista) seria impensável noutros tempos.

      P. S.: a bandeira de Évora é mesmo perturbadora — com aquelas cabeças decapitadas e o rosto de regojizo do cavaleiro de metal a erguer espada ensanguentada. Impagável…

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      1. Sim, mudou muito depois dessa divulgação de melhor destino.
        Vc nem imagina o Algarve. Está no verão cheio de turistas. Os ingleses adoram esse destino, então tem q ter uma dose alta de tolerância a bêbados, etc.

        Eu vivi em Évora por 14 anos, mas nunca esqueço a minha primeira em Évora como turista. Subindo para a Praça do Giraldo (com i mesmo), senti-me mal à esquina, algo difícil de explicar. Anos depois, já como moradora, conheci um professor de arqueologia de nacionalidade grega e toquei com ele no assunto. Ele disse q muitas pessoas já relataram isso q eu senti. Começou a falar desde a atuação do Giraldo na cidade, passando pela Inquisição, a construção da Capela dos Ossos, etc

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        1. Évora é o próximo sítio a respeito do qual falarei no Caderno de viagem, a Capela dos Ossos — e tudo o que ela representa (o flerte [in loco] com a nossa finitude) —, aquela atmosfera medieval… Meteu-me medo.

          E, quando lá estive, quase não esbarrei com seres humanos.

          Uma das minhas visitas prediletas, sem dúvida.

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  2. Quanta delicadeza e elegância pra descrever um lugar que te decepcionou! Achei o texto lindo. Fico triste porque conheci Sintra em 1985. O Palácio da Pena ficou na minha memória como um dos lugares mais aconchegantes que já visitei.

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    1. Mamã,

      Agradeço-lhe imenso pelas delicadas palavrinhas.

      O que percebi foi isto: o jeito é chegar cedo, bem cedinho mesmo, aos primeiros raios de sol — quando a grande maioria dos turistas ainda está a dormir. Durante o inverno, de preferência. Daí, quem sabe, tem-se um sítio aconchegante, como esse que você conheceu em oitenta e cinco.

      Abraços!,

      P.

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  3. Eu, que moro em Lisboa, a 26.4 Km de Sintra, já quase não consigo lá ir. A pressão turística é demasiada e não há época baixa.

    No entanto, pelo menos uma vez por ano, fazemos uma peregrinação para comer um travesseiro da Piriquita enquanto falamos mal do excesso de turismo. Adaptação aos novos tempos, suponho 🙂

    Os seus textos sobre a viagem a Portugal são muito bons!

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    1. Peixinho,

      Foi mesmo o que me disseram: se achas que o sítio está cheio, é porque não viste a coisa toda no verão. Pelos vistos, não há para onde fugir.

      Já cá sinto, no entanto, muita falta dos travesseirinhos de Sintra.

      Obrigado pelas palavras singelas.

      Abraços!,

      P.

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  4. e nos lugares mais desconhecidos, escondidos e simples, encontramos um sentimento extraordinário, inesperado, uma visão que fascina, que nos faz refletir, valorizar e descobrir o essencial, o grande.

    me leve com você…

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  5. Olá Paulo,

    Estive em Sintra nos anos 80 e adorei, especialmente nas horas da madrugada antes dos turistas fazerem a sua presença.

    Acho que depois de Madonna comprar um palacete em Sintra em 2017 aquele lugar mágico ficou mesmo Hollywood.

    Sou grato pela memória da Sintra que tive o prazer de ver.

    Abraço,

    Emanuel

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      1. Mas ela já não vive em Sintra. Aliás, já ouvi dizer que ela não chegou a comprar a mansão, mas que comprou outra casa para morar em Lisboa. Um amigo meu disse-me que quando esteve em Lisboa encontrou uma rua fechada por guardas de segurança que informaram-lhe que era por causa de Madonna estar a fazer compras naquela rua que os peões não podiam passar! Incrível!

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  6. Passam-se meses em que não vou ao centro da Vila de Sintra, porque me irrita bastante tudo o que tão simpaticamente o nosso escritor escreveu…e além disso há muito bons travesseiros sem ser os da Piriquita!
    Mas Sintra tem muitos lugares fabulosos e mágicos. Não sei de com fantasmas ou não, mas não será difícil de os imaginá-los por ali a pairar.
    A Serra ocupa uma grande área e tem lindos recantos, seja com nevoeiro ou não.
    Espero sinceramente que o nosso escritor nesta sua incursão por Sintra tenha visitado outros lugares para além do confuso centro da Vila…
    Porque se não o fez…admito que tenha sido uma decepção!

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    1. Dulce,

      Sintra pareceu-me magnífica — mesmo o centro. A grande ironia é esta: o que mais me incomoda nesses sítios bonitos é a assustadora quantidade de seres humanos barulhentos… e eu a fazer parte da equipa turística, também a acrescentar os meus próprios barulhos.

      É preciso lá ir mais vezes, com toda a certeza.

      Abraços e boa semana,

      P.

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  7. Nos anos 80, a vila era, de facto, um lugar especial (ou era-o para mim)… Ainda que muitos dos palacetes e chalés agora respladecentes estivessem deteriorados, vivia-se ainda uma relativa serenidade e aquele enlevo estranho da decadência… É verdade, como a Dulce referiu, que continuam a existir recantos maravilhosos, mas mesmo na serra as multidões parecem espreitar por todo o lado… Creio que é o mesmo paradoxo do turismo que afeta toda a Europa agora. Se, por um lado, a “viagem” e o turismo se democratizaram, essa democratização tornou-se também massificação… Um aspeto interessante é o de que agora alguns lugares menos espetaculares tornam-se cativantes pelo simples facto de serem menos visitados e de conseguirmos ainda senti-los como “só nossos”… Este verão estive na Dinamarca. Em Copenhaga, a multidão de turistas é de tal modo densa que não há encanto que subsista após todos os encontrões e empurrões para tirar as mesmas fotografias, dos mesmos ângulos, às mesmas coisas. No entanto, Bogense, uma vila sem grande importância na costa do Báltico, sentimo-la como mágica… Estávamos finalmente “sós” entre dinamarqueses…

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    1. Primeiramente,

      É grande pena que não atualize o analogiaz há anos, gostava imenso de ler novos textos ali.

      Hoje em dia, com os Mapas Google (e outras ferramentas à Orwell) é difícil esconder-se geograficamente. A tendência é ir ao sítio, tirar o máximo de fotografias possíveis desse sítio, depois publicar na web — como prova de «eu lá também estive». O filho da amiga da minha tia — este é ainda a personagem a dizer — esteve em Setúbal, eu (personagem) também lá quero ir. A grande quantidade de seres humanos desespera, apetece correr alhures, mas o que realmente me incomoda é o facto de que as pessoas estão a sair de casa com ganas de levar a casa com elas. Estão em Sintra e querem ouvir o hip-hip da própria casinha, estão em Lisboa e querem ouvir as mensagens WhatsApp em alto-e-bom-som (sic) dos que ficaram na própria casinha, estão em Copenhaga e querem comer o chocolate da própria casinha enquanto empurram e gritam e dizem: o chocolate da minha casinha é tão mais gira do que este choco dinamarquês etc. etc.

      Enfim…

      Deixo os meus abraços para si,

      P.

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