E-deias

Eu costumava fazer o papel de pessimista quando o assunto orbitava as chamadas «tecnologias modernas». 

Até sermos questionados por um miúdo de cinco anos, um miúdo que acabara de aprender o abecedário, questionados daquela maneira despudorada, seca, desavergonhada que só os miúdos de cinco anos conseguem fazer, ou melhor, até que somos confrontados, sim, afrontados pelas tretas sem filtros desse miúdo, até que o miúdo nos pergunta à queima-roupa, de chofre, bruscamente: então por que cargas de água escreves para a Internet se não crês nela?

E que a história (estória) de que o livro de pixel vai matar o livro de papel e consequentemente vai matar o leitor é uma lenga-lenga criada por aqueles que estão a se sentir ameaçados pelas novas possibilidades eletrônicas e acreditam que perderão parcelas comerciais significativas; afinal de contas, é a obra de qualquer autor/autora uma mera mercadoria. 

Mercadoria à cabeça, ao intelecto, mas mercadoria — tem preço.

Quando finalmente percebem que quem lê acaba que lê em qualquer canto, em qualquer device — estou a citar —, em qualquer plataforma que permita armazenar palavras, quando finalmente percebem que não há perigo, que os livros eletrônicos podem (e devem) custar tanto dinheiro quanto os livros de papel, a despeito da brutal economia (com impressões, tinta, maquinário, luz, pagamento de funcionários especializados, transportes etcétera, etcétera), quando os Lordes e os Reis percebem que há sempre um louco que paga fortunas por determinadas obras, então eles dizem que tudo bem, que o livro-pixel é a (re)evolução, que não há problema, vida que segue, aqueles que não se adaptarem ao livro-pixel que construam foguetes e fujam para Marte.

Vamos lá ser diretos: até percebermos que é tudo uma questão de copo-metade-cheio-ou-copo-metade-vazio, de perspectiva — de ponto de vista, estou a dizer*. O mundo robótico será uma distopia terrível ou mais um desafio superável? 

Podes comprar os e-livros pelo sítio web da Bertrand quando as árvores já não suportarem as lâminas dentadas ou podes deixar de ler para sempre, chorar com a cabeça enfiada no travesseiro, tentar a natação, o bowling, o pingue-pongue.  

(Há sempre também uma data de pílulas do alheamento: Fluoxetine [Prozac], Zoloft, Paxil, Pexeva, Cipralex, Lexapro e por aí fora.)

Ou podes, quem sabe?, começar um blogue, discorrer sobre o futuro da tua adorável profissão, que por vezes assemelha-se mais a um passatempo primaveril.

— P. R. Cunha


*Eventualmente, tudo vai depender do propósito de cada um — se alguém comprou o tablet para averiguar e-correios, perder-se nas redes antissociais, assistir gatinhos a tocar o piano, adquirir bugigangas desnecessárias, então é bem provável que tenha imensos problemas para ler, digamos, o 2666 do Bolaño ali.

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. É autor de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro). Atualmente, dedica-se às peças teatrais e ao manuscrito de «Sinfonia do fracasso».

8 opiniões sobre “E-deias”

  1. O novo sempre traz desconforto para alguns. Mas é isso, o inevitável, em breve estaremos tão somente por meio algoritmo; tecendo nossas ideias, histórias, memórias e construindo nossa identidade apenas de modo virtual e sem qualquer receio nostálgico. É a ordem natural. Quem sabe, mais pra frente, armazenado por um download diretamente na cabeça do leitor? As possibilidades são infinitas. Pertinente reflexão e ótimo texto.

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    1. Obrigado, Lucas.

      Bom saber que continuas em pé.

      Eu cá creio que o ser humano será um bicho muito diferente daqui a cinquenta/cem anos. E que os conceitos de bom/ruim/inteligência/ignorância modificar-se-ão um bocado.

      O importante é que estamos vivos, agora.

      Ainda há livros nas prateleiras, e nos tablets — ainda há quem escreva, à moda antiga.

      Abraços,

      P.

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    1. Acredito que a leitura é um hábito que envolve outros hábitos.

      Fui alfabetizado à moda papel-e-caneta, de forma que a brochura de celulose é (e sempre será) o meu método favorito.

      Mas se as coisas apertarem lá na frente, tornar-me-ei aquele soldado em batalha — que na falta de melhores alimentos tem de comer a grama sobre a qual pisa as próprias botas.

      Questão de sobrevivência…

      P.

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  2. O tempo tudo leva e tudo transforma. E o ser humano a tudo se habitua, felizmente e infelizmente. Por isso…
    …naturalmente haverá um ponto de equilíbrio, certamente mais a gosto das gerações futuras do que da minha, sem dúvida a geração das grandes transições.
    Contudo, o mais importante mesmo é que a palavra, a poesia, o pensamento ou a nossa criatividade seja partilhada, seja de que forma for. Se o futuro estiver no éter ou na nuvem…que assim seja!
    Além disso, as pílulas de alheamento fazem muito mal à saúde!!

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    1. Concordo imenso, Dulce.

      Outro dia deparei-me com um poema do Miguel Torga ao Instagram.

      Quero dizer: estava eu perdido em excessos fotográficos quando lá me surge um Torga, profundo, sincero, directo.

      Não é a melhor plataforma para isso, sem dúvida. Mas eram as palavrinhas do Torga.

      (…)

      Por enquanto, espero a chegada do futuro — sem pressa.

      Abraços,

      P.

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  3. Como o tempo faz firulas de forma rápida e hoje as mãos se ocupam de telas para lerem coisas boas-ruins. Ainda sou da época que tocar na ranhura das folhas era o ápice para quem um dia desejava se tornar um escrevente de palavras. Hoje em dia faço questão de eu mesma costurar os livros e pensar qual a melhor maneira de deixá-los bonitos aos olhos meus e os olhos alheios a vagar por aí.

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    1. É uma postura muitíssimo admirável, M. V. — e não deixa de ser também um privilégio, pois ainda podemos (e devemos!) escolher as melhores mídias para as nossas criaturas. Acho que sempre serei um leitor/escritor (sic) de papel. E, ao mesmo tempo, tento adaptar-me, ou melhor, adequar-me às novas possibilidades.

      Adoro os teus livros costurados.

      Abraços,

      P.

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