Caderno de viagem: andas em círculos (para onde vais?, não sabes…)

Voltar de uma longa viagem ao estrangeiro — o oceano etc. — & falar sobre essa longa viagem & interromper o relato porque outra viagem (desta vez ao centro do Brasil) & distrações agradáveis — viagens sobrepostas/acumulativas — toda a viagem exibe uma beleza & (trecho baseado nas leituras da sra. Sontag) torna-se superficial (i.e. desnecessário) privilegiar certas jornadas como belas (boas?) & outras não.

A viagem para Portugal, ou para o mato brasileiro. Arbitrário (ainda é Sontag) tratar alguns momentos como importantes & a maioria como pura banalidade. Viajar é atribuir significado(s), não importa se algures, ou nenhures. Conferir valor às viagens (se estou a fazer determinada viagem, tu pensas, logo, ela tem importância; certa intransigência, no entanto, com a viagem dos outros [se lá não estou, deveria interessar-me pelo relato alheio?], tu perguntas).

Repetes: nenhuma viagem é mais bonita/importante/interessante do que outra; nenhum viajante é mais preparado do que qualquer outro viajante.

A figura que vem à tua cabeça: barca, estamos todos na mesma barca.

Uma viagem que hoje soa estranha ao teu temperamento, amanhã (isto é, futuramente [não sabes ao certo quando]) pode se mostrar crucial. Queres fazer a tal viagem, porque (vide contextos individuais) ela agora te chama.

Imperativo categórico, Kant, ação necessária em si mesma, sem referência a qualquer outra finalidade.

Da mesma forma que a escrita precisa te chamar, ou seja, não é algo forçado. Escrever e viajar: paradigma, como já disseram, paradigma de atividades nas quais não podemos ser bem-sucedidos (estou a citar) só por tentarmos afincadamente. Podemos preparar-nos para a tarefa (escrever/viajar), sentirmo-nos gratos quando conseguimos construir algo que mexe com os brios de outros seres humanos (a gratificação da empreitada: outra pessoa se identifica com os teus trejeitos, sentes-te encorajado, recompensado, queres continuar).

Pensar na seguinte situação: Yovkov viajara muitíssimo e pensara desesperadamente sobre essas viagens — como transformá-las em mercadoria, vendê-las aos noticiários. Mas quanto mais atenção o sr. Yovkov dava às viagens menos ele conseguia aproveitá-las, relatá-las.

Não digas nada com pressa — parafraseio o Ulisses —, não penses agora, não faças perguntas. Perde-te.

O viajante começa a interpor-se no caminho da prória capacidade para agir de modo natural, pensa excessivamente uma atividade que, de certa forma (ver yips/mão fria [Dreyfus & Dorrance Kelly]), devia ser reflexa.

É bem isto: viajar enquanto estás a escrever sobre as tuas viagens.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

8 opiniões sobre “Caderno de viagem: andas em círculos (para onde vais?, não sabes…)”

  1. As viagens curtas, e até curtíssimas, podem ser tão prazerosas quanto uma longa.
    Eu leio sobre as viagens dos outros, pq é um assunto prazeroso para mim, e por respeito a quem escreve.
    Uma viagem pode ser a inspiração para um livro. Acho q foi o q aconteceu, por exemplo, a Hugo Mãe qdo esteve na Islândia, e escreveu A Desumanização..

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    1. Querido Emanuel,

      Ontem a Jéssica perguntou-me o motivo de eu ter dois furos na orelha esquerda; respondi que foi numa altura rebelde, queria ser um tipo «inadequado», à guisa de tirar papá e mamã do sério — como costuma ocorrer quando o animal humano passa pela adolescência etc. etc. Mas existe esse ímã que nos leva de volta para aquilo que «realmente» somos, ou à nossa essência, se preferir. Tentava fugir de mim mesmo, até perceber que minha embarcação estava apenas a dar voltas, ancorava no mesmíssimo porto de sempre.

      Pelos vistos, algo parecido ocorre quando viajamos — e Patrick Watson é lá uma mui adequada banda sonora a essas ocasiões, mesmo que a aventura comece e termine às traseira de casa.

      Que eu possa continuar a contar com a tua amizade em 2019.

      Abraços!,

      P.

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      1. Olá Paulo,

        Estás certo quando escreves que « existe esse ímã que nos leva de volta para aquilo que «realmente» somos, ou à nossa essência, se preferir».

        Estou a ler “Descobri que era europeia”, um interessante ensaio de Natália Correia, escritora açoriana (1923-1993), sobre as suas impressões de uma viagem que fez à América do Norte no ano de 1950. Apesar de a América ser hoje uma realidade muito diferente do que era nos anos 50 (ou será que em 2019, fundamentalmente, seja ainda a mesma América daqueles tempos?), duvido que o norte-americano tenha-se iluminado nas questões de justiça social, de racismo e de sexismo. Por isso, ler o ensaio de Natália Correia é descobrir um país que ainda não evoluiu, e meramente dá-nos a ilusão que ultrapassou o seu passado.

        No caso de Natália, foi nesta viagem à América que ela descobriu algo importante sobre as suas raizes europeias. Talvez as nossas viagens ajudam-nos a descobrir quem somos e a conhecer-nos melhor quando voltamos a casa, ou seja, à nossa essência!

        Espero que eu também possa continuar a contar com a tua amizade em 2019.

        Abraço,

        Emanuel

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        1. Maravilhosa reflexão, Emanuel.

          Meu falecido vovô costumava dizer que passara boa parte da vida a querer chegar nalgum sítio, até perceber que não havia sítio propriamente. Quer dizer, a vida, ainda segundo vovô, seria aquilo que nos acontece ao meio. Todos nós daremos o último suspiro, é isto certo. O sentido, portanto, é não chegar ao destino, mas buscá-lo, seguir o caminho, ter o fim anuviado. E torcer para que a paisagem derradeira não nos chegue cedo demais.

          Lerei o ensaio da Natália Correia com parcimônia e depois te passo as minhas impressões.

          Abraços, meu amigo!,

          P.

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          1. Paulo,

            O que dizes de teu vovô fez-me lembrar esta frase que li, por acaso, ontem:

            “Os Românticos trouxeram a noção de que o sentido da vida estava algures. E como para eles imaginar e actuar era uma só coisa, fizeram-se andarihos do mundo a fim de proclamarem que o «habitat ideal» é o sítio onde não se vive. Foi desta angústia ambulatória que nasceu o turismo.”

            Natalia Correia, in A Lágrima de Miss Davies (Contos inéditos e cróninas de viagem)

            Emanuel

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            1. Emanuel,

              Que maravilhosa reflexão!

              E esse sentido da vida algures…, até que um se dá conta de que algures é inatingível — tal & qual a estrela que se afasta do nosso planeta mais rápido do que a velocidade da luz, e por mais que quiséssemos nos aproximar dela, o tecido espaço-tempo estaria sempre para diante, longe do nosso horizonte de eventos. O jeito é mesmo apreciar a jornada, as tentativas de se chegar ao sítio impossível.

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