Caderno de viagem: outro prólogo (outra parte escrita num Fabienne Chapot [marketing and sales by New Edition Stationery BV — Netherlands] com folhas pautadas à moda escolar e motivos selvagens para a capa)

Como deve ler-se este caderno de viagem? Qual é a maneira mais apropriada de o ler? O autor do caderno sugere que ele devia ser lido de uma maneira — faz com as mãos como deve ser lido. Depois de apreciá-lo com a devida atenção, comentamos «sim!, sim!, agora compreendo, faz todo o sentido». Agradecemos com uma mesura desajeitada, rimos dos nossos modos teatrais. 

O viajante também conhece a filosofia de Wittgenstein. Importa-se imenso com a filosofia-Wittgenstein.

Podes ler o caderno de viagem uma primeira vez e achar profundamente tedioso, sofrível até; mas daí lê deste novo modo, de um modo que nunca imaginarias e dizes: ora!, que maravilha este caderno de viagem, brutal, agora gosto deste caderno de viagem etc. 

Estás a ler mais intensamente.

Como demonstrar que determinado autor de cadernos de viagem te agrada? Relê o autor várias vezes, consome o autor, ignora o autor quando for preciso, não sintas pena do autor.

O cidadão passa três breves dias em determinado país, volta e conta para os seus: conheci tal país. Vós sempre achastes isto curioso. Já Marco Polo esteve vinte seis anos na China e por vezes confessava: não conheço a China. Numa cidade como Lisboa, é preciso escolher, selecionar, é preciso ir para algum canto, explorá-lo, dar-se por satisfeito. Não podeis ter Lisboa toda para vós. Como dizia um ilustre antigo — é não estar em parte alguma em todo o lado estar.

Pôr por escrito os pensamentos de viagem, os aforismos de viagem, os trechos vagos que te assombram durante uma chuvosa noite em Aveiro. Escreves sobre a viagem como fosses salvar a sanidade de alguém. Provavelmente a tua própria sanidade.

É improvável imitar ipsis litteris a rota de outro viajante — as diferenças (ruas, estilo, temperatura [meteorologia de forma geral], profundidades, cores, linhas, pessoas etc.) são de imediato percebidas. Como dizia o teu avô: precisas criar os teus caminhos. 

Noutras palavras: o teu comboio vai para o outro lado. Tens uma certa emoção, queres tornar isto o mais claro possível — ao teu modo.

O tempo em Aveiro no período natalício: sol, chuva, ventos, sol, chuva, sol, ventos, chuva, ventos, sol. Uma escola de transitoriedade, as nuvens aveirenses ensinam-te que tudo passa. Nada é permanente. (Falar sobre as dificuldades de se trabalhar como meteorologista em Aveiro.)

Num passeio público junto ao Tejo, perto do Cais do Sodré, a ouvir a lamentosa sirene de um ferry que afasta-se para dentro do nevoeiro, ofereceram-te, em cinco ocasiões, sacolinhas de maconha. (…) A partir de então, decides ser mais cauteloso com a tua vestimenta.

É possível estar em Lisboa sem estar em Lisboa? Se lês os apontamentos lisboetas de Fernando Pessoa estás também a perambular pelas ladeiras, a ver as casas coloridas, estás a navegar o mesmo Tejo, a ouvir o fado — é possível viajar até às quintas portuguesas sem nunca aterrar em Portugal? Em que sítio estamos quando lemos os relatos do viajante, do observador? Cochilas com o Livro do desassossego ao colo e pensas para ti mesmo: onde é que me meti — onde nos metemos quando folheamos o Livro do desassossego? 

Ouves a respiração do poeta, estás numa aldeia distante. Não te apeteces voltar.

De início não pensavas muito em escrever sobre Lisboa, Évora, Sintra, Aveiro. Limitavas a observar e a entender a dicotomia que te ia na cabeça. Demoravas imenso tempo observando as gôndolas aveirenses com a ingênua crença de que poderias usar tudo aquilo que estavas a ver — tal e qual Funes, o memorioso de Borges.

Mas tu te esqueces, tu não te lembras de tudo.

Estás na Praça do Comércio, Lisboa. Atravessas o Arco da Rua Augusta. Estás rodeado de turistas, miúdos a falar o francês, o alemão, o espanhol, o russo, miúdos a correr loucamente atrás dos pombos bravos e modorrentos que comem as migalhas de um pastel de natas. Perguntas: ora, onde foram parar os portugueses? Não os vias por ali, isso era certinho.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. É autor de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro). Atualmente, dedica-se às peças teatrais e ao manuscrito de «Sinfonia do fracasso».

10 opiniões sobre “Caderno de viagem: outro prólogo (outra parte escrita num Fabienne Chapot [marketing and sales by New Edition Stationery BV — Netherlands] com folhas pautadas à moda escolar e motivos selvagens para a capa)”

  1. ”Num passeio público junto ao Tejo, perto do Cais do Sodré, a ouvir a lamentosa sirene de um ferry que afasta-se para dentro do nevoeiro, ofereceram-te, em cinco ocasiões, sacolinhas de maconha. (…) A partir de então, decides ser mais cauteloso com a tua vestimenta.”🤣🤣🤣O texto todo é incrível, essa parte em especial!

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    1. Querida amiga,

      O Cabral de Melo Neto dissera certa vez que «escrever é estar no extremo de si mesmo». Eu cá acho imensamente recompensador que alguns dos meus extremos tenham-lhe proporcionado sorrisos natalícios.

      No mais: que as brincadeiras de bolso continuem em 2019.

      Boas festas!,

      P.

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  2. O grande problema de Lisboa é estar a perder muitos dos que lhe dão alma, porque o dinheiro e o lucro falam mais alto.
    E andar na Baixa de Lisboa espelha essa realidade, por vezes de uma forma assustadora, porque ela passou a ser dos viajantes, dos tuc tuc, das selfies, da maconha (que dizem falsificada…), dos hotéis, hostais, airbnb’s e restaurantes por tudo o que é canto e recanto.
    Mas, felizmente, Lisboa é muito o Tejo e tudo o que gira em sua volta, a luz que reflecte ou as gaivotas que a sobrevoam. E é também a simpatia da maioria, a segurança que nos transmite e os lugares intimistas que ainda guarda em muitos bairros e com muita gente ainda genuína.
    Espero que consigam sobreviver…

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    1. Dulce,

      Curiosamente, no meu último dia em Lisboa conversei com alguns lisboetas que demonstraram essas mesmas inquietações — o lucro desacerbado, o dinheiro, o facto de Portugal «estar na moda», essa onda de destino predileto na Europa etc. etc.

      Arriscar-me-ia a dizer que se trata de um desafio global — desafio global, como quase tudo nesses tempos modernos, não? Veja o caso de França, Inglaterra, mesmo países que historicamente adotavam posturas mais neutras (penso na Suíça) estão agora a mostrar os dentinhos da frente.

      Num contexto em que tudo é mercadoria, também estariam a comercializar o ser humano e as nossas respetivas práticas?

      Ir a Portugal fez-me reflectir imenso sobre isto tudo: como iremos viajar num futuro próximo, com tantas tecnologias, e possibilidades virtuais, e culturas que estão a se perder por conta da padronização à escala mundial, e espaços que antes definiam uma cidade, um país, agora estão a ser tomados por gentes que muitas vezes saem de casa já com a expetativa de que a terra estrangeira lhes servirá a mesma Coca-Cola de sempre, o mesmo McDonald’s de sempre, o mesmo Netflix de sempre?

      Permitir-se viajar (i.e.: se surpreender) tornar-se-ia uma prática de resistência?

      Mas divago…

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  3. E divaga bem, o nosso escritor!
    Mas…
    …o bonequinho amarelo do Google Maps não transmite emoções, cheiro, paladares, vibração, detalhes, sentires de pele…
    Só no terreno, caminhando, isso é nosso e fica nosso. Por isso os turistas continuam e continuarão a chegar aos magotes e a invadir os espaços. Querem experiências fora do écran do smartfhone, mesmo não se desligando dele.
    Viajando, somos e seremos sempre surpreendidos na pele. A coca cola ou o MacDonald’s são apenas detalhes de uma rotina entranhada.

    Contudo, para que o essencial não se anule, julgo que o tempo levará à necessidade de controlar os fluxos turísticos. Mais cedo do que pensamos.

    Feliz 2019!

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    1. Querida Dulce,

      Ouvir-lhe escrever (o paradoxo é intencional) sempre me enche de esperança: faz-me pensar que nem tudo está tão ruim, que as «notícias» podem até ter a pretensão de nos contar o que acontece «lá fora»; mas, ao fim e ao cabo, são pessoas como si — com sensibilidade, destreza, discernimento — que observam de verdade.

      Gostava de continuar a contar com a sua companhia-à-distância em 2019.

      E que possamos compartilhar ainda mais poesias, fotografias, palavras, sonhos, utopias.

      Abraços atlânticos para si,

      P.

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