Observações pouco específicas e um tanto desinteressadas sobre viajar

O autor ainda desconhece o propósito destas notas; teme, entretanto, que as viagens estejam a se transformar em meros deslocamentos inconvenientes — tal como o maníaco citado por Baudelaire que substituía móveis sólidos e jardins verdadeiros por cenários pintados em tela e montados em caixilhos.

Determinadas jornadas, por algum motivo, produzem emoções diferentes no teu coração — e se estás a ler o relato de algum fidalgo que passara por epifanias parecidas, logo deixas de ser um mero leitor-espectador para juntar-te ao viajante, ao caminho, à estrada. Um amplo e sensível diálogo do fidalgo connosco, com a vida. Perguntas-lhe «por onde anda, por onde andou, para onde vai». Se achas realmente simpático o relato, logo percebes aquela aprazível atmosfera que toda a gente que numa altura esteve na poltrona de um comboio com a janela aberta — o vento fresco a limpar o rosto —, que toda a gente que já ouvira as profundas badaladas dos sinos de certa aldeia portuguesa irá prontamente entender. O viajante pode estar a contar verdades, ou a transformar o que vira em auto-retrato ficcional; entrelaça a realidade vivida com as composições fantásticas da literatura. Viajante está a observar a rua desde um café estrangeiro e pensa com afinco sobre as possibilidades desta cena, o potencial narrativo desta cena: um passarinho canta, um trompetista aveirense que limpa o instrumento com ternura, o balé moroso de árvores retorcidas pelo Pai Inverno. O viajante não precisa de ser um homem triste, tímido, um bocadinho atormentado, solitário — embora amiúde o seja. Lá está ele com os cabelos desgrenhados à Einstein, a fotografar qualquer coisa na praça central, a vivenciar, a lutar contra o esquecimento. Bem podia ser um brasileiro de trinta e poucos anos, um metro e setenta de altura, um tipo aluado que acabara de sair da estação de comboio com o mapa da cidade de Lisboa para o bolso do sobretudo preto, a calcular a melhor rota até ao Hotel Continental — se pego está ou aquela avenida, ele diz consigo, talvez poupasse uns dez minutos, evitaria atravessar o Chiado que a esta hora com toda a certeza está engarrafado —, o viajante a devorar uma sanduíche de manteiga com o pão mole, a dar golinhos esporádicos no Sumol de laranja. Ele respira fundo o ar lisboeta, glaciar, e pensa se outros também sentiriam a mesma espécie de comoção que ele está a sentir diante da capital portuguesa, aquele tipo de arrepio involuntário que por vezes sentimos quando nos deparamos com o bater de asas de um colibri. 

— P. R. Cunha

13 thoughts on “Observações pouco específicas e um tanto desinteressadas sobre viajar

    1. Miau,

      Entreguei-me à perdição do Sumol de laranja por pura traquinagem, já que raramente ingiro bebidas gaseificadas. No entanto, preciso de dizê-lo: do sabor, não me esqueço.

      P.S.: Lisboa é como um sonho do qual não queremos acordar.

    1. Obrigado, Vittorazze.

      Aproveitei deveras aquela terra dos mares — Portugal é mesmo deslumbrante.

      Boas festas para si e espero que mantenhamos contato em 2019.

      P.

  1. Caminar por las estrechas calles, montar en el famoso tranvía, escuchar a la gente, sentir el aire frío del invvierno, contemplar el Tajo…
    Espero que estés disfrutando de tu viaje, absorbiendo ávidamente cada sensación, cada olor, cada sonido, los colores, los sabores. Feliz viaje.
    Un abrazo.

    1. Mi querida amiga,

      Una excelente descripción sobre ir de viaje, de hecho. Contemplé el Tejo durante horas. Y tuve una duda: ¿Estoy seduciendo al río o el río me está seduciendo?

      Lisboa es como un tatuaje, permanece.

      ¡Abrazos!,

      P.

      1. Supongo que sería un encantamiento mutuo… es un pecado, ya lo sé, pero aún no conozco Lisboa y me seduce mucho y también Oporto. Algún día iré.
        Un abrazo.

    1. Dulce,

      Já aterrei nas latitudes tropicais, com o coração repleto de saudades.

      Lisboa abalou imenso as minhas estruturas — Lisboa derrete, Lisboa arrepia, Lisboa insiste. E espero conseguir expressar meus sentimentos a respeito dessa maravilhosa capital nas próximas publicações do blogue.

      Boas festas para ti e para os teus!,

      P.

      1. Obrigada pelos votos, que retribuo!
        O que nos “abala”, caro escritor, é sempre bom. Gera movimento e dá luta.
        Por isso fico muito feliz por a bela Lisboa ter tido esse efeito ainda em maturação.
        Fico a aguardar os próximos episódios desta “viagem”!!

  2. Se em Lisboa é assim que o ilustre escritor se sente, imagino o que não sentiria se fosse a maravilhosa cidade do Porto o destino. 😊

    1. AmagM,

      Porto ficou para depois — é preciso uma vida inteira para (realmente!) conhecer Portugal; e mesmo assim sobrar-se-iam sítios diversos pelo caminho. No meu caso, tive apenas um par de semaninhas.

      Mas volto, ah!, se volto…

      Abraços e boas festas para ti,

      P.

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