Já posso ouvir os versos cantados pelo fantasma de Pessoa — ou uma jornada tragicômica com turbulências (Lisboa)

Chegar duas horas antes da descolagem, despachar as malas, fila do embarque (a contar atrasos eventuais causados por miúdos que jogam-se para o chão e esperneiam diante da mamã brasileira, que não liga patavina para aquelas tretas), entrar no aeroplano, colocar as malinhas nas bagageiras, nove horas dentro do transatlântico celeste, aterrar, entrar na fila dos possuidores de passaporte estrangeiro, ficar duas horas em pé, entrevista com a alfândega (motivo da visita?…, prêmio?, em Aveiro?, és jovem, ora!, quantos anos tens?, o quê?!, não, não posso acreditar, a sério?, e o livro vale a pena? [solta o prolongado «uhmmmnnn…»], gostava de ler exemplar com a tua assinatura, assim, quando fores famoso, claro, é isto, faz boa viagem, menino, parabéns pelo prêmio — diz o homem da alfândega), esperar o funcionário da transportadora que me leva ao hotel para o merecido descanso. O caminho até Lisboa dura quase uma vida inteira.

Anexo: ou trecho do livrinho de notas

Estamos a sobrevoar o Atlântico ao meio de uma turbulenta tempestade de relâmpagos; não acho que vamos morrer, mas é um bocado assustador chacoalhar-se dentro de um comboio alado a 11 mil metros da superfície. Enquanto isto, há uma coisa que está a mexer com os meus brios: a passividade forçada de determinados passageiros (via de regra: homens caucasianos que andam por volta dos 40 e têm as têmporas grisalhas) que fazem cara de desdém diante do desespero alheio, aquela odiosa cara de nada está a acontecer, estou calmo, um eremita, estressa-te à toa, a aviação moderna é segura, devias estar siente disto há muito, como se estivessem sentadinhos para a salita de televisão assistindo à novela vespertina, erguem os jornais, dão bocejos com ar de desprezo; se a lei ainda permitisse provavelmente acenderiam o cigarro aromatizado, dariam uma tragada e o segurariam com aquela pose tipo Oscar Wilde. O que vou escrever agora soará macabro pacas… Acontece que uma parte de mim (aquela com inclinações diabólicas) bem gostaria de que este avião caísse, só para ver essa gente irritante a gritar um bocadinho.

— P. R. Cunha


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Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

9 opiniões sobre “Já posso ouvir os versos cantados pelo fantasma de Pessoa — ou uma jornada tragicômica com turbulências (Lisboa)”

  1. Costumam ser simpáticos, mas como um certo teste. Rsrs
    Uma colega brasileira, q vive aqui na Bélgica, fez escala em Lisboa, e teve a infelicidade de se dirigir a um funcionário da fila como “moço”. Hahaha Bem, ouviu resposta. Rsrs

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