Senhoras & senhores, descolagem autorizada

Tiveste um ano repleto de escritas e agora estás deitado numa cama macia a anotar isto aqui, sem nenhuma vontade — propriamente — de anotar isto aqui.

Overdose de literatura (ou o mal de Montano [vide Vila-Matas et al.]). Escrever todos os dias e ver o que acontece.

Amanhã viajarás para Portugal e tua mãe pensa que tu deves estar na lua, muito satisfeito com tudo; afinal, recebeste um prêmio de literatura, ela diz, era bem o que tu querias, não era?, não era?, não era?

Há um telefonema, a gentil pessoa do outro lado da linha te dá os muitos parabéns porque tu acabaras de receber um prêmio, sentes tremor de pernas, o teu coração é um motor de fórmula 1, teu sistema nervoso libera acetilcolina, noradrenalina, o solo desaparece, estás a cair, era bem o que tu querias (pausa dramática), não era?

Fizeste as pazes com o tablete-leitor-eletrônico, principalmente porque antes era-te um verdadeiro estorvo escolher os livros à viagem, o peso na mochila, a indecisão, «será que é mesmo este livro que gostavas de levar na aeronave» etc. O teu tablete tem agora duzentas obras digitalizadas e pesa um pouco mais do que uma folha A4. Estás a sentir-te um bocadinho sujo diante dessa situação.

Chegaste mesmo a sonhar que os livros de papel gritavam na tua cara: traidor!, traiçoeiro!, desleal!

Agora, diz até breve aos leitores, diz que voltas, diz que sentes já o cheiro dos pastéis de nata…

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

24 opiniões sobre “Senhoras & senhores, descolagem autorizada”

  1. Boa P.
    “Chegaste mesmo a sonhar que os livros de papel gritavam na tua cara: traidor!, traiçoeiro!, desleal!”, com esta fizeste-me rir! 🙂

    Primeiro tenho que te dar os parabéns, será sem duvida, um livro que tenciono adquirir num futuro.

    Tenho-te a desejar tudo de bom, vais ter uma óptima viagem, e tenta pelo menos nos por a par quando comeres o pastel de nata. Acima de tudo diverte-te ao máximo!
    Abraços.

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    1. Querida Irina,

      Gostava mesmo de escrever um bocadinho a respeito dos quitutes lusitanos, sem nenhum compromisso estilístico/profissional, apenas provar e colocar ao papel as impressões de minhas papilas gustativas. A ver…

      Aterrarei em Lisboa com o coração aberto para todas as possibilidades portuguesas. E tu sabes melhor do que toda a gente como é mais emocionante quando deixamos a imprevisibilidade e a espontaneidade tomarem conta dos nossos atos ao lidarmos com as fazendas criativas.

      Aprendo um bocado contigo.

      Muitos abraços,

      P.

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    1. Dear Jay-lyn!,

      I’m not quite ready to make the full transition, as a wise man once said. My brain definitely works better when dealing with old-style paper books. But when I travel and I want to read everything and and I’m always undecided — it is, indeed, hard not to value the convenience of an e-reader. Glad we still have a chance to chose.

      Thanks for your kind comment,

      P.

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    1. M. V.,

      Encontrar-me com a tua arte (literaturas/fotografias/&tc.) foi um dos melhores presentes que recebi neste dois mil e dezoito, sem dúvida. E cá acho que quando lidamos com as palavrinhas somos todos viajantes do tempo — ali está uma frase escrita num passado, numa casa, num apartamento, num bar etílico, depois de uma longa ressaca, com o coração ferido de morte, ali está um documento que já passou (e ainda passa).

      Abraço forte,

      P.

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  2. Neste momento em que escrevo, o nosso escritor já tem dois dias de Portugal na alma e dois dias da confusão de Lisboa no corpo… caso ele decida fazer de turista e ir até Belém ver os Jerónimos, a Torre de Belém ou comer o tal pastelinho de nata…
    Atravessei essa zona à pouco mais de uma hora e estava inundaaaada de turistas!! De fugir!!
    Fora este detalhe… está uma temperatura simpática e à tarde, o sol deve aparecer mais activo. Pelos menos tem sido assim nos últimos dias.
    Desejo uma boa estadia, também por Aveiro, pois tenho uma vaga ideia que o prémio será aí entregue. É uma belíssima cidade!

    O importante mesmo é desfrutar e tentar relaxar nesta terra lusitana. O futuro e o pensar será para depois!
    Parabéns pelo prémio!

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    1. Obrigadíssimo, Dulce!,

      Pois o primeiro dia serviu-me para uma caminhadinha não muito longe do hotel (Campo Pequeno) e revigorante noite de sono à laia de controlar jet lag. Hoje a viagem começou a sério. Visitei Sintra, Cascais, Estoril. Ao centro histórico de Lisboa (e cercanias) vou na segunda-feira, porque disseram-me o mesmo que escreveste: inundando de gente durante o fim-de-semana. (Quem sabe não avisto certa poetisa a ruminar pensamentos por aí…)

      Até que fez bom tempo — espero que prossiga desta maneira —, e estou com a típica cara-cor-de-tomate dos turistas desleixados.

      No mais, só tenho a dizer que Portugal é mesmo uma terra deslumbrante.

      Abraços para ti,

      P.

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        1. Dulce,

          Já há alguns dias que estou aos canais de Aveiro — cinco ou seis quilos mais rechonchudo, por conta dos benditos ovos moles. Se venho morar para Portugal terei de arranjar roupas mais largas.

          Abraços do

          P.

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