Senhoras & senhores, descolagem autorizada

Tiveste um ano repleto de escritas e agora estás deitado numa cama macia a anotar isto aqui, sem nenhuma vontade — propriamente — de anotar isto aqui.

Overdose de literatura (ou o mal de Montano [vide Vila-Matas et al.]). Escrever todos os dias e ver o que acontece.

Amanhã viajarás para Portugal e tua mãe pensa que tu deves estar na lua, muito satisfeito com tudo; afinal, recebeste um prêmio de literatura, ela diz, era bem o que tu querias, não era?, não era?, não era?

Há um telefonema, a gentil pessoa do outro lado da linha te dá os muitos parabéns porque tu acabaras de receber um prêmio, sentes tremor de pernas, o teu coração é um motor de fórmula 1, teu sistema nervoso libera acetilcolina, noradrenalina, o solo desaparece, estás a cair, era bem o que tu querias (pausa dramática), não era?

Fizeste as pazes com o tablete-leitor-eletrônico, principalmente porque antes era-te um verdadeiro estorvo escolher os livros à viagem, o peso na mochila, a indecisão, «será que é mesmo este livro que gostavas de levar na aeronave» etc. O teu tablete tem agora duzentas obras digitalizadas e pesa um pouco mais do que uma folha A4. Estás a sentir-te um bocadinho sujo diante dessa situação.

Chegaste mesmo a sonhar que os livros de papel gritavam na tua cara: traidor!, traiçoeiro!, desleal!

Agora, diz até breve aos leitores, diz que voltas, diz que sentes já o cheiro dos pastéis de nata…

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

23 opiniões sobre “Senhoras & senhores, descolagem autorizada”

  1. Boa P.
    “Chegaste mesmo a sonhar que os livros de papel gritavam na tua cara: traidor!, traiçoeiro!, desleal!”, com esta fizeste-me rir! 🙂

    Primeiro tenho que te dar os parabéns, será sem duvida, um livro que tenciono adquirir num futuro.

    Tenho-te a desejar tudo de bom, vais ter uma óptima viagem, e tenta pelo menos nos por a par quando comeres o pastel de nata. Acima de tudo diverte-te ao máximo!
    Abraços.

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    1. Querida Irina,

      Gostava mesmo de escrever um bocadinho a respeito dos quitutes lusitanos, sem nenhum compromisso estilístico/profissional, apenas provar e colocar ao papel as impressões de minhas papilas gustativas. A ver…

      Aterrarei em Lisboa com o coração aberto para todas as possibilidades portuguesas. E tu sabes melhor do que toda a gente como é mais emocionante quando deixamos a imprevisibilidade e a espontaneidade tomarem conta dos nossos atos ao lidarmos com as fazendas criativas.

      Aprendo um bocado contigo.

      Muitos abraços,

      P.

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    1. Dear Jay-lyn!,

      I’m not quite ready to make the full transition, as a wise man once said. My brain definitely works better when dealing with old-style paper books. But when I travel and I want to read everything and and I’m always undecided — it is, indeed, hard not to value the convenience of an e-reader. Glad we still have a chance to chose.

      Thanks for your kind comment,

      P.

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    1. M. V.,

      Encontrar-me com a tua arte (literaturas/fotografias/&tc.) foi um dos melhores presentes que recebi neste dois mil e dezoito, sem dúvida. E cá acho que quando lidamos com as palavrinhas somos todos viajantes do tempo — ali está uma frase escrita num passado, numa casa, num apartamento, num bar etílico, depois de uma longa ressaca, com o coração ferido de morte, ali está um documento que já passou (e ainda passa).

      Abraço forte,

      P.

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  2. Neste momento em que escrevo, o nosso escritor já tem dois dias de Portugal na alma e dois dias da confusão de Lisboa no corpo… caso ele decida fazer de turista e ir até Belém ver os Jerónimos, a Torre de Belém ou comer o tal pastelinho de nata…
    Atravessei essa zona à pouco mais de uma hora e estava inundaaaada de turistas!! De fugir!!
    Fora este detalhe… está uma temperatura simpática e à tarde, o sol deve aparecer mais activo. Pelos menos tem sido assim nos últimos dias.
    Desejo uma boa estadia, também por Aveiro, pois tenho uma vaga ideia que o prémio será aí entregue. É uma belíssima cidade!

    O importante mesmo é desfrutar e tentar relaxar nesta terra lusitana. O futuro e o pensar será para depois!
    Parabéns pelo prémio!

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    1. Obrigadíssimo, Dulce!,

      Pois o primeiro dia serviu-me para uma caminhadinha não muito longe do hotel (Campo Pequeno) e revigorante noite de sono à laia de controlar jet lag. Hoje a viagem começou a sério. Visitei Sintra, Cascais, Estoril. Ao centro histórico de Lisboa (e cercanias) vou na segunda-feira, porque disseram-me o mesmo que escreveste: inundando de gente durante o fim-de-semana. (Quem sabe não avisto certa poetisa a ruminar pensamentos por aí…)

      Até que fez bom tempo — espero que prossiga desta maneira —, e estou com a típica cara-cor-de-tomate dos turistas desleixados.

      No mais, só tenho a dizer que Portugal é mesmo uma terra deslumbrante.

      Abraços para ti,

      P.

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