Hotel Brasília

A impressão é a de que cheguei ao fim do mundo. Está tarde, mas posso ainda escutar os barulhos do centro, os autocarros a sair da rodoviária, a motocicleta rangendo, os gritos de amor no quarto ao lado, o choro de uma mulher idosa, marteladas na parede (o que estariam a pregar?), a televisão, o noticiário, um abajur ligado que não ilumina a leitura de ninguém. No restaurante do primeiro piso, vi um garçom aflito porque as mesas mostravam-se impecáveis, as toalhas brancas, os pratos alinhados, os talheres reluzentes, mas algumas taças de vinho, que supostamente deveriam brilhar de tão cristalinas, estavam borradas de batom — alguém lhe dissera às costas: tranquiliza-te, Francisco, ninguém desce para comer a uma hora destas.

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s