Quarta nota #5 — quarentena galática, ou Calvin a dizer para Hobbes que a maior prova da existência de vida inteligente fora do nosso planeta é o fato de nenhum extraterrestre ter ainda se arriscado a entrar em contato conosco

§ Há muito que este electro-sítio se transformara em espaço indefinido, etéreo, no limite entre fantasia e realidade. Por vezes o próprio autor não sabe ao certo o que é o quê.

§ Franzen diz que a ficção mais puramente autobiográfica exige pura inventividade.

§ Minha resposta predileta ao paradoxo de Enrico Fermi (se o Universo é tão grande, tão velho, possui tantas estrelas e tantos planetas habitáveis… — então cadê os alienígenas?) é a hipótese Zoo. Extraterrestres tecnologicamente avançados já teriam localizado a Terra, mas decidiram não intervir, pois querem manter a nossa sociedade funcionando de maneira autônoma. Desta forma, não seríamos muito diferentes daqueles animais cuja vida acreditamos salvar ao mantê-los em reservas ecológicas específicas. Estão a nos observar e talvez até esbocem um sorriso torto diante das nossas incontáveis parvoíces.

§ «Passeio a minha casa / como leão na jaula», o trechinho é do Ruy Cinatti.

§ Antiga tradição em África: os tambores mensageiros. Percussões cujas batidas não transmitem o simples, o direto — elaboram. Se o caçador sente medo, os tambores não dirão apenas «não sintas medo», pois preferem discurso mais ativo: «Tira o coração da boca, fá-lo descer já daí, deixa de lado a angústia desnecessária, respira com destreza», etc. Os percussionistas africanos, portanto, longevos cronistas da espécie humana, que ao fim jaz de costas sobre montes de terra.

§ Stan Lee: a prova de que os super-heróis também morrem.

§ Sr. Trágico chega ao próprio apartamento para ler aquelas palavras que de tão harmoniosas, ele pensa consigo mesmo, só parecem dignas de olhos flamejantes e entendimentos sublimes. Sr. Trágico percebe que está a escalar a lombada do venerado livrinho uma traça modorrenta, mui gulosa de papel. Dá um peteleco na traça, FFFFUUUPPTTT. Certeiro. Traça voa ao longe, caindo finalmente sobre o jogo de xadrez, em cima da mesa que deveria servir às refeições. A torre branca ameaçada pelo bispo preto. Dois movimentos e xeque-mate. Mas sr. Trágico, agora um bocado distraído pela suavidade das Musas em elogios raros, ainda não percebera a ameaça real. 

§ Terminou a 11 de novembro de 1918 a guerra que supostamente deveria acabar com todas as guerras.

§ Na última segunda-feira, papai teria completado 65 idades.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

14 opiniões sobre “Quarta nota #5 — quarentena galática, ou Calvin a dizer para Hobbes que a maior prova da existência de vida inteligente fora do nosso planeta é o fato de nenhum extraterrestre ter ainda se arriscado a entrar em contato conosco”

  1. E se formos apenas códigos num algoritmo?
    Trancafiados nessa matriz, observados como experiência por super-cientistas sociais.
    Os supostos planetas com possibilidades de conceder vida seriam apenas um alento à nossa espécie, uma brincadeira desses cientistas, uma alternativa futura caso destruamos esse aqui.
    Ou e se formos a espécie mais tecnologicamente desenvolvida desse universo e o ônus do primeiro contato com as civilizações extraplanetária fosse cargo nosso?
    E se?

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    1. Vittorazze,

      Certa vertente matemática (para a área de estatística/probabilidade, com ilustres «seguidores» como Neil deGrasse Tyson, Elon Musk, Michio Kaku [apesar de ele às vezes mudar de lado]) diz que há apenas uma chance em um bilhão de isto aqui a que chamamos realidade ser de fato a realidade. Pelos vistos, é muito mais provável que estejamos a vivenciar simulação criada por algum nerd cuja existência também dependa de um outro controlador de algoritmos — numa estranha sequência de bonecas russas high-techs, simulações dentro de simulações. Basicamente: em curto período de quarenta anos saímos do excêntrico e simplório jogo Pong para elaboradíssimas plataformas com multiplayers a interagir online, gráficos assustadoramente realistas, de tal maneira que dentro em breve não conseguiremos mais (ou não desejaremos mais) distinguir o que são acontecimentos de um enredo virtual e o que seriam acontecimentos «verdadeiros». Realidade virtual, realidade aumentada, realidade dos bits, matrix…, chame-a do que quiser. Basta assumirmos qualquer taxa de melhoramento (mesmo que ínfima) na elaboração dessas construções paralelas para chegarmos à conclusão de que provavelmente algum outro tipo de sociedade já tenha passado pelos mesmos processos de desenvolvimento e construído para si cenários dentro dos quais personagens estariam a atuar sem nunca perceber o que poderia de fato existir «lá fora» — como naqueles cartoons em que peixes estão a conversar despretensiosamente no fundo do oceano, gabam-se porque acham que compreenderam tudo o que havia nas profundezas, sem cogitar a infinidade de acontecimentos acima da superfície aquática. Jogos dentro de jogos, The Sims construídos dentro de The Sims, avatares a gerar avatares: deuses binários, pois não…

      (E que tal um papo desses em pleno feriado?)

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      1. Agora você me alarmou, caro Cunha.
        Não sabia que essa vertente teórica era tão aceita assim entre os especialistas. Nomes de peso ainda por cima.
        Confesso que eu ficaria desapontado caso essa seja a verdade.
        Seria muito mais fascinante se as explicações se resumissem à mecânica quântica e leis físicas que regem o comportamento das pequeníssimas moléculas e dos elementos colossais que estamos predestinados a deduzir em um futuro próximo (caso cerca de 500 anos possa ser considerado futuro próximo, se bem que… sim, na escala astronômica meio milênio é um bater de asas de beija-flor.)
        Digo que seriam mais fascinantes, pois fariam mais sentido à minha cabecinha despreparada para tanta matemática avançada.
        A própria Teoria das Cordas, que muitos consideram umas das mais plausíveis, já me embrulha o estômago quando tento compreender.
        E sobre sermos meros dados digitais conduzidos por seres transcendentais, espero que meu player adote o subterfúgio dos cheats.

        (Um papo desse cai bem em qualquer hora e data)

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    2. P. S.: Vittorazze, gostava de lhe agradecer imensamente, pois que a divagação que publiquei acima estará (com alguns [poucos] recortes) nas páginas do meu próximo livrinho — numa altura em que o personagem principal se pergunta a respeito da própria realidade. Devo-lhe uma cópia, se a obra for publicada.

      Abraços,

      P.

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        1. Eu costumo dizer que por vezes rezo para o meu desenvolvedor ter muito, muito cuidado com os fios da máquina; não gostava de ser eliminado por um mero tropeçar no cabo de energia. De resto, que atualize o sistema regularmente e jamais utilize Microsoft Windows.

          (…)

          «Se você acha que entendeu alguma coisa sobre física quântica, então é porque você não entendeu nada sobre física quântica», a frase (ou paráfrase, porque cito de memória) é do Feynman.

          (…)

          O problema das teorias mirabolantes como a string theory é que elas se tornam tão abstratas, e cheias de dimensões extras, e impeditivos diversos que chegam ao ponto de não permitirem qualquer tipo de experimento tangível. São ideias elegantes, como gosta de ressaltar o Brian Greene, mas se não conseguimos testá-las/comprová-las…

          Por isso que gosto de ler também sobre possibilidades longe das correntes dominantes — tais como a do «Electric Universe» (vide Thunderbolts Project etc.). De aí refletimos sobre isto: Arthur C. Clarke estaria mais perto da verdade do que gostariam de imaginar?

          Talvez sejam as limitações do nosso cérebro orgânico, reptiliano. De repente, quando nos combinarmos com a robótica o horizonte se mostre menos nebuloso. Quem sabe até um breve e revelador encontro com os deuses digitais?

          Abraços para si, Vittorazze. E prometo desde já a cópia autografada,

          P.

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          1. Apesar de estar engatinhando é uma pena a integração com a robótica ao nível celular se encontrar tão distante de nosso horizonte.
            Volto na tecla, gostaria que meu player usasse vida extra, então eu poderia desfrutar das infinitudes do universo junto aos meus tatata(x10²²)ranetos.

            Gostei dos nomes que jogou aqui. Mais conteúdos para as minhas pesquisas das horas vagas, na esperança de ligar as pontas soltas dessa disciplina tão deslumbrante que é a Astronomia.

            Uma excelente semana Herr Cunha!

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      1. Rsrs não. Eu quis dizer q eles devem achar estranho, como uma forma primitiva. Sentarmos para nos alimentar e depois sentarmos para colocar parte desta alimentação para fora.
        Fico a imaginar se há algum processo semelhante com eles, ou no passado de uma possível existência.
        Talvez tb nem seja esse nosso costume o mais estranho para eles. Rsrs Se calhar, o destruir o nosso próprio habitat deve ser o mais estranho para eles.

        E já agora, lembro que ontem o meu autor preferido faria 96 anos. Ele disse: “Estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A única coisa que importa é o triunfo do agora. É a isto que eu chamo a «cegueira da razão».”

        José Saramago, para sempre. ❤️

        Bom fim de semana! Escreva sempre !

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        1. Acho que para percorrer essas distâncias astronômicas a crew alienígena precisaria de ser um bocadinho lelé da cuca e menos orgânica do que imaginaríamos. A hipótese cinematográfica dos homenzinhos e das donzelas verdes (ou cinzas) com cabeça grande, olhos retangulares, corpo miúdo não me parece a mais plausível. Talvez possuam formas tão estranhas para os nossos conceitos que provavelmente cogitaremos a «alienação coletiva». Ou eles podem operar em frequências fantasmagóricas e tomar conta das nossas ondas cerebrais com tamanha facilidade que tudo pareceria um sonho, ilusão.

          Não sei se mostrar-se-iam amistosos. Da mesma forma que não somos amistosos com as espécies ditas inferiores. Como no caso dos esquilos. Uma empresa que extrai madeira pode não ter nada contra os esquilos, mas eles montaram casa nas árvores, e agora a empresa precisa da árvore. Too bad, esquilos.

          A verdade é que o ser humano Saramago sabia imenso das coisas.

          Bom descanso, Miau.

          Apareça.

          Sempre.

          P.

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