Breve sentido de (quase) nada

No livro Paraquedas — um ensaio filosófico* escrevi que as ruas estão cheias de automóveis, e que dentro desses automóveis há humanos que acordam cedo, levantam-se para ir ao trabalho, cumprem a carga horária exigida pelas normas da firma, voltam para casa, lidam com as obrigações domésticas, dormem, acordam cedo, levantam-se para ir ao trabalho… e assim por diante. 

No século XIX, Friedrich Nietzsche — que é perspicaz nestes assuntos — chamara o roteiro-idas-&-voltas-repetidas de «o eterno retorno». Imaginara a possibilidade de vivermos a mesma vida, vezes sem conta, a lidar com as mesmas pessoas, as mesmas situações, as mesmas dores, os mesmos sucessos, os mesmos fracassos. Diga-se a propósito, tanto quanto sabemos, teorias como a do cosmos inflacionário** legitimam esse looping proposto por Nietzsche, uma vez que infinitas combinações de universos gerariam também infinitas possibilidades de acontecimentos.***

Contudo, ao invés de tranquilizar, essas conjunturas criam ainda mais inquietações; principalmente quando perguntamos qual o sentido da nossa existência.

Para o historiador Yuval Noah Harari**** o ser humano é uma máquina orgânica manejada por conjuntos de mecanismos bioquímicos em conflito — alegrias misturam-se com tristezas, raivas com paixões. Ao nos perguntarmos por que cargas d’água vivemos, todos esses elementos entram em ação e tentam produzir uma narrativa supostamente coerente à guisa de minimizar ansiedades.

Harari instiga-nos a refletir sobre as inúmeras justificativas baseadas em faz-de-conta que construímos (e remodelamos) durante a vida. Afinal, quantos filmes, romances e poemas consumimos ao longo dos anos, em quantos deuses/mitos acreditamos e deixamos de acreditar, e como essas estruturas esculpiram e aguçaram nossa noção do que é o amor, a amizade, nossa percepção de mundo?

Somos, pelos vistos, um baú de narrativas — algumas verdadeiras, a grande maioria baseada em ficções. Somos contadores de causos, de aventuras, queremos que a nossa versão prevaleça, que nos levem a sério. Queremos também criar histórias em que exercemos o papel do protagonista. Queremos fazer parte de algo maior: ser relevantes. De aí inventarmos (e acreditarmos tanto nessas invenções).

Albert Einstein***** ao tentar responder sobre o sentido da vida comentara que «a pessoa que considera a própria narrativa e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver». Pode-se achar que Einstein se esquivara da pergunta, dera lá uma resposta genérica, ficara em cima do muro, como se diz. Mas ele sabia que no fundo a vida não tem sentido, nós (a nossa cabeça [cérebro], a nossa consciência) que criamos não só os propósitos, como a necessidade de analisar esses propósitos em constante mudança.

Ao passo que o sentido tornar-se-ia justamente isto: continuarmos a perguntar qual o sentido das coisas. Até que não haja mais tempo (ou vontade) para responder coisa alguma.

— P. R. Cunha


*Editora da Universidade de Aveiro, lançamento previsto para 17/12/2018.

**Alan Guth et al.

***Inclusive uma espécie de Groundhog Day (O dia da marmota, Harold Ramis, 1993) cosmológico.

****Yuval Noah Harari, 21 lições para o século 21 (Companhia das Letras, 2018).

*****Albert Einstein, Como vejo o mundo (Nova Fronteira, 1985).

Publicado por

P. R. Cunha

Mora em Brasília, Distrito Federal. Em 2009, estudou russo na cidade de São Petersburgo, cujas avenidas lhe serviram de cenários para os primeiros contos. Depois de terminar o curso de jornalismo, resolveu dedicar-se integralmente à fazenda literária. Além de romancista, é poeta, dramaturgo, fotógrafo e músico.

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