Admitir que a literatura modifica a fisionomia de quem escreve

O que faz um ser humano com bom discernimento, ser humano aparentemente saudável abandonar as férias para se esconder num quarto discreto & escrever, escrever como se disso dependesse o funcionamento do Cosmos, o futuro da física quântica? Temperamento irregular, desconforto com a inércia (a clássica imagem das férias: pernas para o ar, sem fazer nada, ver o tempo passar &tc.), necessidade de endorfina (liberada enquanto se escreve), saudades do trabalho intelectual, preocupações mundanas, amor, hábito — todos podem contribuir. Uma ideia aflitiva, esse corpo estrangeiro, como citara Starobinski nalgum relato, ideia da qual o sujeito não consegue se livrar, ideia persistente.

És lá um viciado em letras, ponto. 

Outras influências benéficas para ajudá-lo no tratamento (efeitos [por vezes] temporários): música, teatro, banho de sol, banho de mar, banho gelado, filmes com a namorada, jogos, viagens, pedalar a bicicleta, entregar-se aos prazeres culinários.

Fazer promessas e não cumpri-las. Prometer: vou sair em férias, dez dias de férias, e depois não sair em férias coisa nenhuma, brincar com as expectativas dos receptores, sair em férias mais tarde, quando ninguém estiver esperando, quando todos estarão a dizer: este aí não precisa de férias, este aí até que está bem descansadinho.

Não que alguém dê a mínima para as suas férias…

Ao gosto do dia: estado maníaco (euforia, ápice), estado de depressão (vale, reino das trevas [reino das sombras]) — intervalos lúcidos. Sentir-se num carrinho desgovernado de uma montanha-russa que há anos não recebe vistoria, dar-se conta de que a trava de segurança desse carrinho não funciona. Há um looping adiante.

Nenhum escritor gosta de permanecer inativo. Nada de ficar deitado na cama. Manter-se em movimento, praticar exercícios das faculdades intelectuais & afetivas (grifo meu). 

É possível tirar férias quando o nosso trabalho já meio que se assemelha às férias? 

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

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