Ação/reação: sentidos opostos (fugir algures)

Para o Daniel Jatobá

Antes de sair para umas merecidas férias (cerca de dez dias [porque mais do que isso enlouqueço]), achei coerente publicar texto que me fizesse refletir um bocadinho enquanto longe desta atividade literária que, de muitas formas, me legitima quando estou à sociedade. Uma recente conversa com o grande amigo e professor existencial Daniel Jatobá* instigara-me como da praxe a questionar o papel do escritor num contexto cada vez mais mutável, imprevisível; como a pessoa que se dedica aos livros** precisaria — ou não — se posicionar diante de determinados contextos contemporâneos etc. Estas foram as intenções, como se diz. Em que medida as consegui pôr na prática não me compete a mim julgar.

*Intrigante escritor-personagem sobre quem os leitores brasileiros, em breve, terão o prazer de ler no conforto dos respectivos lares.

**A confissão arrepiante, sussurrada, de um homem que dedicou a vida à obra e que agora precisa de se controlar para não se arrepender; construir para si narrativas que justifiquem as fugas para cantos fechados enquanto o tempo passa, enquanto a vida passa.


Estamos em 2018 e está a acontecer todo o tipo de porcaria, coisas realmente doidas, isso para dizer o mínimo.

O escritor maduro — ou seja: aquele que não sofre mais antes de escrever, aquele que encontrara a própria voz, aquele que tem já na memória um sem-número de referências que lhe auxiliam a qualquer momento, aquele que se esquecera do jargão «bloqueio criativo» pois tem sempre algo engatilhado a respeito do qual deseja discorrer com afinco —, o escritor maduro, como eu estava a dizer, que depois de tanto estudar/pensar/matutar/problematizar está agora a ouvir no rádio as últimas notícias do mundo e se vê invadido por uma estranha sensação de culpa, como se fosse um dos maiores responsáveis pelas anomalias sociais: escuta passivamente, acredita que não se envolvera o bastante até ao ponto de fazer a diferença, de influenciar de maneira positiva a escolha das outras pessoas, de compartilhar o conhecimento que adquirira nesses anos em que a boa fortuna lhe dera todas as condições possíveis e inimagináveis para exercer literaturas.

Depois do setembro mais quente de sempre, estou farto de tanto calor.

Qual seria, portanto, a missão do escritor (por vezes a confundir-se com a figura do intelectual), a prioridade, o que deve exigir a atenção e a engenhosidade do escritor, escritor que, como já foi dito, passara anos a estudar, a adquirir toda a sorte de conhecimentos, qual o propósito disso tudo?

Deve ou não ter empenho político, ser alienado, ter engajamentos, convicções, que postura adotar diante dos acontecimentos tenebrosos, da possibilidade cada vez mais plausível de o Brasil eleger um protótipo de fascista com cérebro de Homo neanderthalensis (sem querer desrespeitar os Neandertais), um fascista falsificado, e toda a gente que já se deparara com mercadoria falsificada sabe do risco que estamos a correr.

Fica-se muito confuso, diz que «puxa vida!, a verdade é que odeio política, mas as pessoas sabem que eu escrevo, e pensam que tenho muito a dizer sobre política, economia, taxas, ideologias, mas acontece que se alguém me perguntasse qualquer coisa sobre o Sebald eu saberia responder, sobre o Paul Auster, também saberia imenso, sobre o Winston Groom, sobre o Tchekhov, mas sobre política […]».

Escritor politizado: ou bem se faz de ridículo ou muito raramente se torna um guia digno de se seguir — como um George Orwell ou um Jonathan Swift.

Compreende que a casa está prestes a desmoronar mas não imagina como uma massa encefálica repleta de referências literárias conseguiria melhorar a conjuntura; sente dores, sente medo, sente-se impotente, fraco, vaidoso, suscetível, vingativo, perdido — não quer se responsabilizar por nada nem por ninguém, não quer adotar posturas pedantes à moda eu avisei. Estão todos no mesmo barco.

Minha avó chega de Niterói, daqui a pouco. A que ponto habituei-me às pequenas ocasiões desta existência em ebulição. Passear com vovó enquanto tudo está a ruir, pensar que não sou babá de vivalma, que não só os escritores têm responsabilidades, todos os brasileiros têm responsabilidades, e cada um pode e deve decidir por si quais são essas responsabilidades, sempre com a terceira lei de Newton à cabeça = as ações possuem reações, consequências. 

Que os demônios eleitorais tenham piedade de nós…

— P. R. Cunha

Publicado por

P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

8 opiniões sobre “Ação/reação: sentidos opostos (fugir algures)”

  1. Engraçado, Paulo. Estive nesse conflito nos últimos dias.
    Li umas mil obras desde o medieval até os tempos modernos para entender como esse processo acontece na nossa literatura, como que, nós escritores podemos dizer, porque precisamos dizer, contudo, de que forma podemos dizer? Porque precisamos de fato dizer, somos a história, nós quem a contamos.
    Isso me fez lembrar das minhas aulas preferidas de literatura estrangeira no ano passado e posso te afirmar, humildemente, que não existe forma melhor de se contar nossa história do que simplesmente contar sobre a nossa história.
    A própria descrição de qualquer elemento pode ter sob ele toda uma ideologia de época.
    Você não fala sobre a política em linhas gerais, lineares e precisas. Você conta historinhas que carregam ela em panos baixos.

    Forte abraço, meu grande escritor!

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    1. T. M.,

      Colocações perfeitas: as ferramentas de quem escreve (independentemente de gênero/estilo) são as palavras, os verbos, os adjetivos, os substantivos — em suma: as possibilidades gramaticais. Tzvetan Todorov costumava dizer que nesses discursos, nessas escolhas, estavam implícitos os diversos posicionamentos (políticos, sociais, contextuais etc. etc.) do escritor; de forma que, sim, a própria descrição de qualquer elemento pode ter sob ele toda uma ideologia de época.

      A escrita como um espelho de quem somos — como pensamos, no que estamos a pensar, no que não queremos pensar. A ficção, assim, seria a verdade contada de várias formas (mas sobre isso podemos conversar ao vivo e a cores).

      Gostava que mais pessoas estudassem também esse mutável processo desde os medievais até aos nossos tempos, que mais pessoas se entregassem ao diálogo instruído ao invés de mergulhar nos monólogos da estupidez. Mas de aí já me acusam de utópico…

      Abraços, gigante poetisa,

      P.

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