Porque é óbvio que nem toda a gente vive da mesma maneira

Ele andava de um jeito engraçado, como se estivesse prestes a levitar, ela segurava o braço direito dele com suavidade, ternura. Eles tinham acabado de tomar sorvete & depois de ela tanto insistir ele finalmente aceitou levá-la para conhecer o apartamento em que ele morava há quase um ano. Eles pararam à portaria, ele a abraçou & disse: passo importante, este. Ela sorrira. Ele ajeitou os cabelos dela. Entraram no elevador, ele tirou as chaves do bolso da calça. Antes de destravar a fechadura do apartamento ele olhou para ela: tens a certeza de que queres mesmo fazer isto? Ela consentira com a cabeça, os olhinhos a brilhar. Ele então abriu a porta & como se fosse um guia turístico explicando as peças de um museu estranho começou a mostrar todos aqueles livros jogados, centenas, milhares de livros, no chão, nas prateleiras de madeira clara, sobre o sofá de três lugares perto da escrivaninha — também amarrotada de livros —, livros em cima do fogão, livros em cima da pia, livros na cama, centenas e milhares de livros, é importante repetir, Francisco de Moraes, Le Carré, Virginia Woolf, Pinker, Ballard, Starobinski, Horgan, Panek, Austen, Kafka, Mendes Campos, Cheever, Plath, Camus, Baudelaire, Beauvoir, Harari, Eco, Melville, Begley, Haroldo de Campos, &tc. &tc. &tc., livros em cima do rádio, livros dentro do banheiro, livros, em suma, para tudo quanto é lado, & parecia que ele tinha sempre uma anedota a fazer sobre esses livros, ou uma história edificante sobre esses livros, ou uma lembrança que determinada coleção oitocentista lhe trazia, & quando ele finalmente parou para respirar, como se diz, quando ele percebeu que desde que começou a falar sobre esses livros todos não dera a mínima atenção para ela, quando ele decidiu olhar para ela, portanto, ela que ficara em absoluto silêncio durante as explicações dele sobre todos esses livros, quando ele finalmente se voltou para observá-la, ele definitivamente não estava nem um pouco preparado para o que viu.

— P. R. Cunha

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P. R. Cunha

Escritor, fotógrafo & músico. Mora em Brasília e pretende ter em breve um cão chamado Sebald. Ganhou o concurso literário Cidade de Belo Horizonte de 2012, com o livro «Quando termina», escrito em coautoria com Paulo Paniago. Atualmente, dedica-se ao manuscrito de «O tumulto das nuvens» e aguarda a publicação portuguesa de «Paraquedas – um ensaio filosófico» — obra vencedora do Prémio Aldónio Gomes (Universidade de Aveiro).

7 opiniões sobre “Porque é óbvio que nem toda a gente vive da mesma maneira”

  1. Nossa, e o que será que ele viu? Preciso saber…

    Gostaria imensamente de ter uma casa assim um dia, com livros empilhados formando uma barreira até na cama que possa dividir eu e Carolina. Hahaha

    Puta descrição, faz com que o ar se prenda na expectativa das palavras e nos coloca em toda cena.

    Gostei demais P.

    PS: Precisamos dá próxima página!

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    1. M. V.,

      Admiro um bocado a sua relação com a Carolina — mesmo a saber que o que estou a acompanhar (blogue/Instagram/&tc) é apenas uma parcela pequenina do que vocês realmente compartilham entre si.

      Não sou muito de cair para o amor romântico (amor dos filmes, amor-Hollywood, digamos assim); acho que se trata de algo bem mais personalizado, a depender de contextos, dos corpos que estão a experimentar esse magnífico sentimento. Mas percebi uma constante nesses meus por vezes incríveis/por vezes conturbados trinta e poucos anos de planeta Terra: sabemos que alguém realmente nos ama quando esse alguém vê o nosso pior lado, encara os nossos demônios, lida com os nossos defeitos e, mesmo assim, decide ficar. Permanece.

      Gostava de compartilhar isso com você.

      Abraços carinhosos,

      P.

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      1. Nossa relação é pintada por sombras e demônios. Ela sempre permaneceu sem arredar mesmo quando me viu na pior das piores, nas alas hospitalares ou delirante de antidepressivos. E é isso. É a troca fluida das elevações constantes da órbita; vida. E nisso somos boas. Somos ímpares e somos pares. Acho que isso é o significado do termo; Amor pra caralho!

        Beijão P. R

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